Pronto. Mais nada pra falar.
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Em dia com a fome
[Olha que não há mais metafísica no mundo |
quinta-feira
Agora ternura, pra compensar:
O teu silêncio é uma nau com tôdas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraiso...
Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte...
O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto...
Minha idéia de ti é um cadáver que o mar traz à praia..., e entanto
Tu és a tela irreal em que erro em côr a minha arte...
Gente, pêlámôrdêdeus. Fernando Pessoa não escreveu nada parecido com "Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e que posso evitar que ela vá a falência". ELE NÃO ESCREVEU NENHUMA MERDA DESSAS! E se chegou a dizer "tenho em mim todos os sonhos do mundo" (Álvaro de Campos, cacete, Álvaro de Campos.), certamente não foi com esse sentido besta.
Drummond escreveu "O sofrimento é opcional"? Victor Hugo escreveu aquele poeminha sem métrica? Vocês têm internet, têm orkut, têm dinheiro, por que não vão ler em vez de ver The O.C.?
Vão se enforcar.
ProfessionOrkut
profissão: Vou ali entrar em crise e já volto.
habilidades de carreira: Incitar colegas à revolução e contar piadas nas horas impróprias.
interesses de carreira: Mudar o mundo.
Enjôo no estômago.
Muita gente, muita coisa, palavras demais. Um copo inteiro de vinho, uma semana inteira de embriaguez, um tempo inteiro de tudo o que eu não via há tanto tempo.
Parem tudo isso, parem tudo isso.
Chega de afeto, porque de afeto eu só tenho um monte.
domingo
sexta-feira
O tempo passa rápido no relógio digital, mas por dentro da minha cabeça cada segundo dura uma tonelada e os olhos demoram horas para se abrir. As horas que passei longe me levam cada vez mais além, e eu não sei se quero ir. A voz maldita e o violão dão voozinhos dentro do peito, mesmo agora que não passam mais pelo ouvido, e me dão náuseas — a voz suave, tão longe, logo ali... Quero ser duas, quero ser cem, me tira daqui.
Chuva e sol
Eu ouvi a noite inteira e hoje não paro de ouvir; a melodia se engancha lá no fundo da cabeça e fica te roçando o pensamento como alguém que fizesse cafuné sem parar nos teus cabelos e tornasse assim o mundo doce demais pra se agüentar — a boca pede água. O céu branco e brilhante na janela me sussurra ainda todas as melodias que eu passei a noite ouvindo, com que eu passei a noite sonhando, e o tudo mais indizível que elas trouxeram — o céu me sussurra tudo isso, o maldito céu, junto com o ar e a luz. Nesta semana meu coração se expandiu. Eu o sinto concretamente, o maldito coração, algo entrou nele e despertou toda a capacidade de crescer escondida dentro dos músculos que antes batiam menos acordados. Então o coração aumentou, aumentou, ficou maior que eu, ficou maior que a roupa e os dedos e os outros, ficou maior que o horizonte e agora toca em tudo — não como algo que é grande demais e atrapalha, mas como uma presença firme e penetrável que abarca tudo, que abriga tudo, que pega tudo o que toca e coloca dentro de si e nunca mais deixa ir embora. No meu coração cabe tudo, cabe o maldito tudo que eu agora sinto bater nas veias e que me deixa feliz e doída. Eu sei que passos dar, eu sei o que decidir, mas a cada passo e pensamento eu me assusto e sangro por carregar o mundo todo no meu coração e ainda assim me sentir leve e transparente como o céu branco e brilhante.
Eu sinto os quatro elementos de tudo.
quinta-feira
Criptografado
Ok, vamos escrever, vamos escrever, que a vida é feita de escrever e os dias são feitos de saber e lembrar.
Por enquanto, sei e lembro que sou gente. [Às vezes basta, às vezes parece pouco, no mais é insustentável.] Hoje em especial, sou gente com mais gente ao meu redor. Mais que a cabeça está pra fora d'água: agora só a canela ainda sente a lama, para não se esquecer jamais do que também é feio e falho e imperfeito.
Muito sono pra conseguir escrever. (Leia como quiser.)
Não, hoje num é dia pra isso.
A verdade é que não tenho nada a lhes dizer — venha logo me dar um abraço que só assim a gente se entende.
Tá bom. Você não viu nada, não viu nada; então eu vou embora.
[Eu quero aquilo que lava a alma, eu quero o algo que me dá medo, eu quero a calma que me dá força, eu quero a vista que me faz linda, eu quero o lado que me tem perto, eu quero o mesmo que me faz forte.]
quarta-feira
Lucidez
Eu sempre achei engraçado fazer parte de uma comunidade do orkut chamada "Eu me preocupo com a educação". É tipo anunciar pra todo mundo "Eu pago os meus impostos em dia", ou "Eu cato o cocô do meu cachorro".
E na ilustração ainda tem uma professora perplexa, com uma maçã sobre a pilha de livros na mesa e um "S.O.S." escrito na lousa atrás dela. Deprimente.
Hoje me convenci
eu tou com muito gás eu tou elétrica eu tou parecendo uma criancinha que ganhou uma bicicletinha e fica andando direto por tres semanas seguidas sem parar sem parar
terça-feira
Pós-Imersão
[Relaxa, Ju, era só uma nostalgia boa do fim de semana com o povo do Alfa]
Eu hoje acordo e falta alguma coisa.
Eu tomo café sozinha numa mesa grande e sei que não é perfeito.
Eu como um bolo e sei que não é perfeito.
Eu dou risada e sei que não é perfeito,
e bato papos e ouço histórias e faço planos, e não parece tão bom.
Eu perco as palavras e fico engasgada de novo e ainda não é perfeito,
porque bolo perfeito e risadas perfeitas e nó na garganta e comida, perfeitos mesmos eram os nossos — mesmo faltando alho, como disse a cozinheira.
A gente construiu a perfeição letra por letra.
Meio dolorosamente, a gente continuava andando vendado pelo caminho do esforço
e de repente a gente piscou os olhos e se viu
sendo a concretização da esperança.
(Não mais tão vaga, não mais tão longe.)
De repente, a gente estava junto
(tão junto)
e podia construir algo mais que a esperança.
De repente a gente tem um futuro de verdade
esperando ali na esquina.
segunda-feira
Interrompemos nossa programação para um bode de segunda-feira
Cadê os abraços que eu ia lhes dar?
Gente límpida como Bandeira e profunda como Pessoa,
Vocês me fazem falta como eu não sabia.
sexta-feira
Encore de la pub
Meninos e meninas, tenho novas informações:
1) Os horários vão ser: terças e sextas à noite, durante 1h, e sábados à tarde, durante 2h. Fica-se livre pra escolher vir todos os dias, ou só duas vezes, ou só uma vez, ou pular a semana. Claro que não vai ter muita gente, então dá pra ter uma turminha de três ou quatro todos os dias, com atenção particular pra cada um. Depois, se rolar, a gente vai dividindo em dois grupos, tipo iniciante e intermediário. É muito mais fácil e interessante aprender uma língua assim, em grupinhos.
Quê, "tudo isso tá meio jogado"? Tá nada. Eu dei aula, e [acredito piamente que] sei o que estou fazendo. :-P
2) Tou pensando em começar na semana que vem. Mas tu entra quando tu quiser. Meu e-mail é este aqui, meu celular é amplamente divulgado, meu coração é grande como uma almofadinha vermelha com bracinhos e a frase I love you.
3) As aulas podem funcionar em esquema de troca. Tipo eu te dou mês de francês e você me dá um mês de alemão ou japonês, ou me dá um ou dois livros, ou me dá um jogo americano para a cozinha que eu no futuro vou ter — que é pra isso que eu preciso ficar rica agora. É só sugerir, que nós negocêia.
SERVIÇO:
O QUÊ: francês com a Diana a preço de banana
QUANDO: terças e sextas à noite, sábados à tarde
QUANTO: R$ 10 por hora
quinta-feira
Publicité
Macacada, eu agora dou aula de francês. Vocês sabem que eu falo très-très bien [hoje inclusive eu precisava de documentos pra matrícula na FFLCH e estava revendo meu boletim do 2º colegial no Lycée Stendhal, cheio de elogios das professoras chatas francesas] e também sabem que fico toda feliz quando banco a professora [o que já fiz durante um ano]. Mas vocês não dão nada por mim, então tem mais: ano passado eu tirei o DALF — Diplôme Approfondi de Langue Française, que era na época o mais alto certificado da Aliança Francesa.
Odeio auto-publicidade, mas esta aqui está divertida. Je m'aime.
Então o lance em princípio vai ser: aulas de terças, sextas ou sábados, à noite durante 1h, aqui em casa, com o precinho camaradérrimo de R$ 10 por aula — o que dá R$ 80 por mês fazendo duas aulas por semana. Em qualquer outro professor qualificado, esse seria tipo o preço semanal. Andei vendo professores na média de R$ 35 ou R$ 40 por hora.
Mas como eu quero graninha pra juntar e fazer um pezinho de meia então eu cobro baratinho, meus amiguinhos aprendem direitinho sem pagar muito, e todo mundo fica feliz. Faça o seu horário, venha no dia que quiser (terça, sexta ou sábado), traga uma notinha cor-de-rosa a cada aula e saia daqui falando superbement.
Vem estudar comigo?
[* Se alguém quiser me fazer um template mais bonito pra este blogue, eu pago com um mês de aulas grátis. hoho]
sábado
Ornitologia
Eu tenho respostas como tenho pássaros.
"Você não tem pássaros", diz o interlocutor atento e instruído a respeito. Não, meninos e meninas, a resposta está errada. O interlocutor está mal instruído. Quem vem à minha casa sabe que há pedaços de laranja enfiados nos galhos fininhos, casquinhas de mamão depositadas nos canteiros e banheirinhas nas árvores feitas com fundinhos de garrafas PET. Eu tenho tantos pássaros que eu não os conheço. Tenho rolinhas andando apressadas nos azulejos alaranjados do jardim, tenho bem-te-vis que se empoleiram nos galhos altos da alamandra para anunciar que bem-me-viram, tenho sabiás-laranjeira que aparecem de vez em quando escondendo a altivez e sabiás comuns que me acordam às 4h da alvorada com um canto em escala pentatônica nas noites em que dormi bem; tenho pardaizinhos a perder de vista e mais uns passarinhos pequenininhos de peito amarelo que cantam pra burro e que antigamente adoravam as banheirinhas de garrafa PET; tenho até ninhos; de tempos em tempos eu tenho um casal de pássaros com penas prateadas e um verde-brilhante-azulado bonito no peito, e mais raramente ainda eu tenho um beija-flor.
Por tudo isso eu não tenho gaiolas, e portanto posso ter pássaros e posso ter respostas. Porque tanto uns quanto as outras podem voar, sair, voltar, parar, andar, repousar, brincar, chafurdar, piar, me acordar e voar embora.
A gente tem essa mania de engaiolar as respostas que acha na rua. Furaro os óio do açum preto pra ele assim, ai, cantá mió. Eu quando era criança e brincava numa cidadezinha de cem habitantes com as ruas e os muros feitos de xisto peguei um passarinho entre as mãos — foi a única vez. Achei o passarinho encostado num murinho, o passarinho bebê, todo assustadinho. Aí peguei — eu nunca pensei que conseguisse pegar um passarinho. Fechei as mãos em torno do corpo dele, e ele não tentou voar. Dava pra sentir o coraçãozinho batendo, nele as penas e as peles e os músculos e tudo era fininho e tênue. Mas ele tinha umas pulguinhas minúsculas entre as penas, e elas começaram a andar entre os meus dedos e eu achei ruim e soltei o passarinhozinho. E não quero mais pegar assim bichinhos pequenos nas minhas mãos.
Respostas são bichinhos pequenos? Respostas não são nem sequer existem: respostas voam e cantam.
Eu tenho conhecimentos andando sem pressa nos meus dias alaranjados, tenho vontades que comem dos saberes que eu enfio nos galhos fininhos, tenho certezas que se empoleiram bem alto para dizer que bem-me-viram, tenho dúvidas que aparecem de vez em quando escondendo a altivez, tenho respostas comuns que me acordam às 2h da madrugada com um canto dissonante nas noites em que durmo mal; tenho desejozinhos a perder de vista e algumas piadas que adoram se fazer notar na hora errada; tenho até soluções; de tempos em tempos eu tenho um casal de alegrias com penas prateadas e um peito brilhante-azulado de todas as cores, e mais raramente ainda eu tenho lucidez.
Respostas cantam e depois voam. E não têm nomes, como os passarinhos do meu jardim.

[Eu olho para Douglas Adams, um ateu que também ri de nós sobre as estrelas, digo "42!" e dou uma gargalhada.]
Credo
Tem alguém sobre as estrelas olhando pra gente e rindo. Tenho certeza que sim. A cada vez que a gente chora, a cada vez que a gente pensa, a cada vez que a gente come, a cada salário que recebem os que ganham salário, a cada ano que passam os que comemoram os anos, a cada hora em que alguém diz "até amanhã" ou "eu te amo" ou "tenho certeza que sim", alguém o olha e pára e ri.
Eu prefiro acreditar que o faça com ternura, porque assim é mais fácil viver. Três quartos da humanidade acreditam, como eu, que o riso é terno — e inventam nomes, dizem então "Deus me ama", instituem cultos, lêem escrituras e vão para o Céu quando morrem.
Quem lhes garante que o riso não passa de escárnio. Quem lhes garante que o riso não é troça. Quem lhes garante, aliás, que escárnio não é compaixão. Quem nos garante que não é piedade. Quem me assegura que não é de ternura.
Eu tenho respostas, e nenhuma delas inclui palavras.
Fato é que ontem alguém sobre as estrelas olhava para mim e ria, o dia inteiro.
E que hoje, entre 6 bilhões e 500 milhões de pessoas num planetinha verde-azulado e mais outros bilhões de bilhões de coisas no Universo e tudo mais, alguém sobre as estrelas olhou para você.
