Em dia com a fome

           [Olha que não há mais metafísica no mundo
           senão chocolates.
]


sábado

Vá brincar em outro lugar

Estou com preguiça. Abandonei o blogue. Ficou às moscas, tadinho.

(Se depois de ir lá checar você ainda quiser voltar a perder seu tempo neste pedaço esquecido do ciberespaço, é só dar um "voltar" nos comandos do seu navegador. Não, não é óbvio. Tudo bem que os analfabetos digitais neste país são só 90% e você tem baixa probabilidade de ser um deles. Mas não é óbvio, você vai ver.)

quinta-feira

Um e meio

A gente é muito político quando escreve, nas menores coisas. Eu naturalmente falei em "gestão de Luiza Erundina" e "administração de Paulo Maluf". Se você colocar as duas palavras lado a lado, certamente vai dar um significado mais positivo a uma do que à outra: uma gestão é um negócio responsável, competente, com visão, e uma administração é um troço burocrático.

:o:

Amanhã é dia de gráfica. Está faltando tipo um terço do livro, e mais o projeto gráfico e a diagramação. Ave, cafeína.

:o:

Ju, pessoas e tudo mais, desculpem não responder um monte de mensagens. Eu entro aqui no blogue e, como diz um aluno que a gente entrevistou, "eu só sei escrever; ler que é bom, mesmo, eu não sei não".

quarta-feira

Dois



(Antes que alguém pergunte, É CLARO que o subtítulo vai ficar assim)

E tenho mais uma para a versão anárquica: o capítulo que fala sobre as perspectivas de erradicação do analfabetismo no Brasil vai se chamar "À espera de um milagre".

terça-feira

Dois e meio

Aí tem o Zé Carlos. E a gente quer citar em mais de uma parte o que ele nos disse, e uma hora o Cadu me perguntou, pra resolver uma picuinha de estilo, como qualificava o Zé Carlos. "Zé Carlos, aluno do Ceop"?

Eu fiz um libelo para responder. Fiquei pensando que escrever sobre o Zé Carlos é automaticamente reduzi-lo a um "aluno do Ceop". Isso passa a defini-lo, e ele deixa de ser, no texto, tudo o que seja diferente de "aluno do Ceop". Escrever sobre ele é, necessariamente, categorizá-lo. E portanto limitá-lo. É como negar todos os outros aspectos que compõem o Zé Carlos, tipo "Zé Carlos, pagodeiro", ou "Zé Carlos, aluno do Ceop e o melhor ponta-esquerda que o time da São Remo já teve", ou "Zé Carlos, que odeia ir à igreja às quartas-feiras porque é o dia em que só tem velhinhas beatas pedindo pelos seus filhos, mas de vez em quando até acha legal porque aparece por lá o Joca, seu amigo de infância".

Sempre que me lembro, eu tento dizer "Fulano, que faz isso" em vez de "Fulano, tal coisa". "Zé Carlos, que estuda no Ceop", em vez de "aluno do Ceop". Não substantivar meu Fulano. Não defini-lo. Apenas descrevê-lo: adjetivá-lo.

Isso me permite ao menos encarar um pouco mais a idéia como "Zé Carlos, uma pessoa com toda uma história de vida por trás e que, além de tudo, é aluno do Ceop — aspecto esse que é o único que nos interessa aqui, o que é uma pena, porque vocês leitores nunca vão ficar sabendo daquele passe que ele deu pro Joca, amigo de infância dele, atacante do time da São Remo, e que acabou sendo o gol que deu a vitória ao time deles na final do campeonato de várzea de 1998".

Não muda nada. Porque faz parte do contrato idiota entre jornalista-e-leitor: você usa "fontes" no texto, usa "aspas" para provar o que está dizendo. O Zé Carlos é um personagem. Meu trabalho é destituí-lo de todo o resto e dizer apenas o que interessa: ele é aluno do Ceop. É uma fonte, que ficou bonitamente descrita no nosso livrinho como "Zé Carlos, que estuda no Ceop".

:o:

Quer outra coisa imbecil de quem escreve reportagem? Tem um cacoete de anunciar o que o leitor vai encontrar na frase seguinte, ao se introduzir uma declaração de alguém. Dar um resuminho, e aí colocar a frase do sujeito.

Avacalhando, dá algo como "Zé Carlos conta como o estudo foi bom para a sua vida profissional. 'Ah, o estudo foi muito bom para a minha vida profissional.' Ele também diz que é muito importante que seus filhos estudem. 'Meus filhos vão estudar, sim. É muito importante.'"

Conhece aquela frase, né? "Se soubessem como as salsichas e os jornais são feitos..."



[eu TAMBÉM seria uma leitora admirada, se tivesse lido o que estava aqui antes. bota admirada nisso. era, tipo, o material bruto — apertar o botão errado dá nisso. tudo bem, ficou divertido: dá uma idéia, além de tudo, de como os jornais e os blogues são feitos.]

[não entendeu nada, né.]

Três

O primeiro capítulo do meu livrinho se chama "Raízes do analfabetismo". Ora, na versão anárquica do trabalho ele vai ter por epígrafe a frase de uma professora casperiana que, depois de anunciar que a classe leria Raízes do Brasil, fez questão de esclarecer: "Não é um livro de botânica, ein?".

Obrigada, professora.
:o:

"RAÍZES DO ANALFABETISMO

Essa aqui é a mandioca. Mas se ocê é nafabeto, ocê chama ela de macaxêra, que é como os anafabeto fala.

Tem tamém a cenôra, que ocê chama ela de cenôra memo.

Tudo essas pranta tem um nome, que é o nome de tubéuculo. Que é tudo as coisa que nós come mas que dá debaixo da terra, cuma se fosse uma raiz.

E essas é as raize do Brasil.

Munto obrigada."

segunda-feira

Muito mais idéias do que as que cabem no meu trabalho

"Uma reforma radical do ensino público é a primeira de todas as necessidades da pátria, amesquinhada pelo desprezo da cultura científica e pela insigne deseducação do povo.

Num país onde o ensino não existe, quem disser que é 'conservador em matéria de ensino' volteia as costas ao futuro e desposa os interesses da ignorância.

É preciso criar tudo; porquanto o que aí está, salvo raríssimas exceções, e quasi todas no ensino superior, constitui uma perfeita humilhação nacional."


Isso não é a fala exaltada de um político em campanha, nem é um trecho do meu livro militante. É o pedaço de um discurso de Rui Barbosa proferido em 1902. Em 1902!. Se você não ficou indignado por ver que os problemas são os mesmos e as pessoas ainda não estão nem aí para resolvê-los, então você não é mais meu amigo.

domingo

Cinco dias e mais metade da madrugada

Depois da banca vou fazer circular uma versão anárquica do meu próprio TCC. Anti-acadêmica. Unabridged. Na primeira parte, por exemplo, que faz o panorama histórico da coisa, os capítulos vão se chamar "1. Dos jesuítas aos militares, cinco séculos de filha-da-putice na educação" e "2. FHC fodeu a EJA, e o futuro como fica?".

E o subtítulo vai ser assim, ó, "ABCidadania: os 14 milhões de analfabetos brasileiros e a elite bundona que não lhes dá nenhuma bola".

Tirei aquele pôste escatológico. Deixa pra depois.
(O blogue é meu e eu edito ele o quanto quiser — hum.)

sexta-feira

Sete dias e eu não penso em outra coisa

(Sobre o formato deste pôste: vou dar uma de Mess Bar. Mesmo porque eu já tinha feito isso antes de conhecer a idéia deliciosa daquele blogue, então me sinto na liberdade de repetir. E porque, além de tudo, as conversas do Sobral são bem mais interessantes que esta aqui — a não ser que você esteja obcecado por alfabetização de adultos do jeito que eu estou agora.)

(Ah. E outro dia eu coloco aqui outra conversa em formatinho de mensageiro instantâneo. Uma maior, que daria muito trabalho para editar nestes dias corridos. :)    )

:o:

Diana diz : nossa. há cinco minutos, meio do nada, lembrei de um episódio que está piscando desde então na minha cabeça dizendo "vc tem que ser professora, vc tem que ser professora, vc tem que ser professora"

Cadu diz : por quê?

Diana diz : quando eu viajei pra porto seguro de onibus

Diana diz : sei lá se era pra porto seguro... a gente fez uma viagem pra bahia

Diana diz : e fomos a vários lugarzinhos, de onibus

Diana diz : eu tinha uns 11 anos.

Cadu diz : hum

Diana diz : aí tinha uma menininha mais ou menos da minha idade no banco da frente, e a viagem estava chata, aí a gente começou a puxar papo e a conversar

Diana diz : ela era claramente pobre.

Diana diz : aí a gente ficou com vontade de brincar de alguma coisa, e eu sugeri um joguinho que a minha mãe fazia com a gente...

Diana diz : que eu não lembro como era, mas mexia com letras...

Diana diz : não sei se era tipo um "stop" ou coisa assim

Diana diz : mas tu tinhas que saber soletrar as palavras, escrever direitinho

Diana diz : então... aí de repente, na primeria "rodada" do jogo, eu vi que tinha feito uma gafe

Diana diz : pq a garotinha claramente não sabia escrever direito

Diana diz : sabia escrever, mas não dominava a ortografia e tal

Diana diz : é claro que eu não seria capaz de dizer "ah, ela sabe escrever mas não domina a ortografia" naquela hora, com aquela idade, aquela cabeça

Diana diz : mas, muito intuitivamente, eu adaptei o negócio

Diana diz : tinha que falar os nomes de letra por letra, e ela falava com o alfabeto que se usa nordeste: "lê", "nê", "ji"...

Diana diz : aí eu naturalmente comecei a chamar as letras assim também

Cadu diz : haha

Diana diz : além disso, a gente começou a escrever as palavras do jeito dela

Diana diz : não lembro das palavras, ms eu lembro que ela escrevia do jeito que ela achava que era (com "erros ortográficos") e eu dizia que ela tinha acertado, tinha feito um ponto

Cadu diz : viva!

Diana diz : haha

Diana diz : sim, tinha pontos no jogo

Diana diz : não, pq não teria nenhum sentido esperar que ela escrevesse de outro jeito

Diana diz : aí acabou sendo uma disputa bem justa, na verdade

Diana diz : haha

Diana diz : então, ms a menina realmente sabia escrever, ms não "ortograficamente"

Cadu diz : ok

Cadu diz : ja entendi

Diana diz : ah, adorei lembrar dessa história!

Diana diz : nunca mais tinha lembrado disso

Cadu diz : mas qual é a moral da historia?

Diana diz : que eu tenho que ser professora

Cadu diz : ah

Diana diz : pelo menos é isso q eu estou ouvindo aqui no fundinho da mente depois de lembrar disso.

De mais uma madrugada

Anseio por algum diálogo em meio à madrugada vazia. As noites em branco são cruéis porque são uma forma de solidão manifesta. Mas nem virtualmente o diálogo aparece. Nem a caixa de e-mails em massa recebe alguma mensagem; ninguém entra no orkut, o messenger está deserto, os blogues dos amigos estão na mesma, e o meu ninguém mais vem olhar.

O Cadu foi dormir há meia hora. E às 2h58 eu paro um pouco a transcrição frenética da fita e me dou conta de que vou ter que enfrentar sozinha o vazio que se estica ao longo da madrugada.

Vejo que entrou alguém no meu blogue. Constato decepcionada que é um usuário de WinXP e IE 6.0. Eu conheço o pingüinzinho do Gentoo que visita meu blogue, conheço a maçãzinha do Macintosh, conheço o Windows Millenium, desconfio de que posso até reconhecer um ou outro Firefox. Mas usuário de XP e Internet Explorer pode ser qualquer um. Que, além de tudo, não veio por nenhum link externo. Não dá pra sentir a possibilidade de diálogo e comunhão com um navegante tão anônimo. Ainda mais nesta madrugada vazia.

quinta-feira

De madrugada

Estou ouvindo aquela música melada, a mais melada de todos os tempos; aquela cuja letra é incoerente e estúpida. Me sinto incoerente e estúpida e tenho vontade de poder rir da letra da música junto com você. Na verdade sinto vontade de fingir que posso ser tapada por alguns minutos, enquanto for durando esta música com strings no fundo, melodia apelativa, voz de quem está chorando e acordes menores bem líricos. Por uns minutos eu queria fingir que esta música é romântica e que eu posso ser romântica com você. Porque você é mais importante do que a sofisticação da melodia, a elegância do arranjo, a autenticidade da poesia, a coerência da letra, você é mais importante do que as outras coisas que eu prezo para aprimorar o meu olhar e a minha compreensão. Seria tão bom com você dançar devagar a Naima quanto rir com você do Bread.

quarta-feira

Nove dias

Fechar os olhos. Apoiar o rosto nas mãos e os cotovelos na mesa. Aproveitar os deliciosos segundos em que não vejo na frente a tela do computador ou alguma outra coisa relacionada com a Cásper Líbero.

Pensar em morar numa cidadezinha, ter uma profissão legal, criar uma penca de filhinhos e ler e tocar piano nas horas vagas. Pensar nos momentos em que se compartilham idéias, projetos, visões, dúvidas e bom-humor. Pensar que há gente no mundo com quem você pode se sentir gente também. Pensar que há gente no mundo que gosta de pessoas e quer trabalhar com pessoas. Pensar que ainda pode haver conversas agradáveis no corredor, ao lado do cinzeiro. Pensar que no mundo ainda há abraços. Pensar que sempre haverá os abraços.

Voltar ao computador para escrever tudo isso e ver se assim ele fica mais simpático.

* * *

(Não fica, não. O computador é a imagem do mal. haha)

segunda-feira

Onze dias para a entrega

Deviam baixar uma lei agora: "Fica proibida a transcrição de fitas chatas em todo o território nacional".
Assim, na lata. E sem referendo para entrar em vigor.

Ou então um regulamento proibindo que burocracias acadêmicas transformem assuntos apaixonantes em obrigações estúpidas. Levemente estúpidas, pra não avacalhar.

quarta-feira

Porque assim eu aprendi quando era criança (e assim desaprendi enquanto crescia)

Obrigada pelos lençóis limpos em que eu me deito toda noite.
Obrigada pelo chocolate e pelo dinheiro que o compra sempre que preciso.
Obrigada pelas harmonias dissonantes e todas as outras músicas que trazem o real paraíso aqui para baixo.
Obrigada pela melancolia, pelo desespero, pela possibilidade sempre presente de chorar. Obrigada pelo medo e pela tristeza.
Obrigada pela possibilidade de aprender.
Obrigada pela possibilidade de abraçar. Obrigada pelos abraços que já sustentaram os dias.
Obrigada pela possibilidade de inventar, de criar histórias, de sentir comoção com as histórias imaginadas.
Obrigada pela possibilidade de sentir comoção com o real.
Obrigada pelo mar. Obrigada pelo infinito.
Obrigada pela paz que supera todo entendimento, e às vezes é mais que uma espera, e às vezes até existe de fato.
Obrigada por segurar a minha mão.

Só eu passo o feriado inteiro na frente do computador, né.
Mas que coisa triste.