Em dia com a fome

           [Olha que não há mais metafísica no mundo
           senão chocolates.
]


quinta-feira

As poucas coisas que acredito na vida

No Cadu, nos amigos, no chocolate, na mamãe, no Papai-do-Céu e nas idéias aí de baixo. Hmpf.


Date: Wed, 29 Jun 2005 20:28:32 -0700 (PDT)
From: "Diana Pelle"
Subject: Sobre o Serra fechar salas do Mova (revolta e esperança de eleitora)
To: rp@soninha.com.br

Vereadora, tudo bem?
Seguinte, Soninha, vi hoje a notícia de que a Prefeitura já fechou mais de 300 salas de Mova na cidade e fiquei bem triste. Tomara que você possa ler pessoalmente, nesta mensagem longa, tudo o que eu gostaria de te dizer.

Primeiro, se você quiser tem uma reportagem contando o caso, na FolhaOnline:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u17596.shtml

Eu trabalho dando aulas para adultos e jovens, e tenho noção de que as justificativas do pessoal da SME são bem pífias. Não dá pra dizer coisas como "encaminhamos todos os alunos para escolas públicas"; a maioria dos adultos que procura o Mova não se adapta ao sistema oficial de ensino, por razões desde ter dificuldade para se encaixar em uma aula tradicional até ter vergonha de entrar numa sala desconhecida. E, pelo que sei, as salas de Mova no geral atendem muito bem às comunidades em que funcionam.

Eu não tenho números, mas imagina só: o pessoal da Secretaria alegou que as salas estavam com poucos alunos — mas, segundo alguns professores, os supervisores da SME só foram verificar isso uma vez, e em vez de debaterem sobre a evasão (que poderia ser eventual) decidiram fechar as salas!

Enfim, pra mim fica meio claro que essa medida foi tomada para cortar gastos; então escolheram uma área que consideraram "desimportante", "secundária". É óbvio que o pensamento do PSDB considera que educação de adultos é algo dispensável, né? Acho que desde o ministro Paulo Renato de Souza a coisa era vista como um luxo, um favor do Estado. Como se a sociedade não tivesse a dívida a pagar com esses adultos que, na imensa maioria, não tiveram outra escolha a não ser abandonar a escola ou nem entrar nela quando estavam na idade apropriada.

Soninha, São Paulo tem mais ou menos 400 mil analfabetos absolutos — sabe, aqueles que não lêem nada e talvez só desenhem o próprio nome. Além disso, mais de 1 milhão de pessoas no município não chegaram a completar a 4ª série (o Mova se propõe a passar os conteúdos de 1ª a 4ª). Não lembro se esses dados são do IBGE ou do Inep; só eles já mostram que cerca de 1,4 milhão de pessoas teriam necessidade do projeto. E as cifras nem levam em conta as pessoas que chegaram até a 8ª e depois esqueceram o conhecimento letrado, ou então nunca aprenderam direito no meio desse caminho. Chutando por baixo, talvez uns 20% dos paulistanos tenham o perfil para serem beneficiados pelo Mova. É gritante, não é?

Eu tou convicta de que oferecer a essas pessoas a possibilidade de finalmente se instruir é uma necessidade urgente. Não só pelo direito que elas têm a isso, mas também por todo o impacto muito profundo que isso causa quando é levado a sério. Um adulto que se educa começa a influenciar no estudo dos filhos e dos netos, a se interessar mais pela sua cidade, a se valorizar mais. "Se valorizar", sabe, não é só questão de auto-estima: também tem a ver com acreditar na própria capacidade de refletir, de opinar, de questionar e de interferir. Atitudes fundamentalis para o sonho — que eu acho que compartilho com você em muitos pontos — de uma sociedade crítica e participativa, de uma administração cidadã.

Mesmo porque as salas do Mova costumam oferecer muito mais do que a mera instrumentação mecânica para as letras. A maioria delas se filia ao pensamento do Paulo Freire, e por isso busca provocar a reflexão e o diálogo, estimular práticas de cidadania e incentivar os participantes (professores e alunos, em medida igual) a intervirem na realidade e tomarem o leme da sua participação social. Tem muita coisa acontecendo nessas salas de aula, Soninha. Na minha visão, elas são alguns dos tímidos lugares em que grupos de pessoas tentam, juntas, construir um jeito justo de viver. Você conhece alguma experiência de EJA progressista, como são os Movas? É fascinante. :)

Não sei se você está por dentro (imagino que sim, até pela proximidade com a gestão da Marta), mas o Mova-SP surgiu na administração da Erundina com algum apoio do Paulo Freire. Depois disso o Maluf sufocou o projeto e a Marta o reviveu (de um jeito muito bonito, aliás). O pessoal da EJA, agora, está com um medão de o Serra sufocar de novo a coisa. E parece cada vez mais que o medão tem razão de ser.

Por todos aqueles meus argumentos sobre o analfabetismo em São Paulo, o pensamento da Secretaria me pareceu muito burro. Ou tem ingenuidade nas justificativas deles, ou então tem um cinismo muito grande (quer dizer: seria melhor dizer logo "é corte de despesas"). A demanda é enorme. Se tem salas vazias, a solução vai ser fechá-las? Parece a solução mais fácil, menos compromissada e coerente. Sem um pingo do compromisso e da coerência que a Prefeitura nos deve. Ou então, eles deveriam estar abrindo mais salas ao mesmo tempo em que fecharam essas 300.

A cobrança não é para a Prefeitura resolver o problema da educação de uma hora para outra. É só para que não se sufoque o Mova. Quero dizer o seguinte: seria meio utópico gritar "alfabetizem esse milhão e meio de pessoas de uma vez". Mas eu quero gritar, sim, para dizer "não mexam num projeto que já está acontecendo, já está dando certo, e está trazendo um impacto social muito mais profundo do que a maioria das outras iniciativas da Prefeitura. E, se puderem, façam ele crescer".

***

Oquei, mas agora eu me vejo meio perdida... Soube agorinha que estava programada uma manifestação hoje (dia 29) na Câmara às 10h, mas não consegui descobrir se rolou mesmo.
Boto a maior fé no teu mandato. :) Me diz: você se acha com condições de entrar nessa briga? E quais são os caminhos para, além de só fazer pressão, tentar interferir efetivamente no que está acontecendo com o Mova?

Espero ansiosamente por uma resposta.

Um abração! Sucesso em tudo, de coração.
Diana

terça-feira

De novo
Ou: desculpem, é pessoal

A valsa do pé-quebrado

Eu sou sonetos completos, e versos de pé-quebrado
Eu sou o vaso partido que ainda pode ser colado
Eu sou o monte de barro que espera por mãos de oleiro
Eu sou a massa do pão num forno ainda apagado
Eu sou o forno do pão com a fornada mais perfeita
Eu sou o pão que desceu, viveu e pediu perdão
Eu sou a encarnação do céu num corpo mortal
Eu sou a filha de Deus que aprendeu a ser rebelde
Eu sou o filho rebelde que assim se viu perdoado
Eu sou poemas do filho que volta ao pai vergonhado
Eu sou sonetos completos e versos de pé-quebrado.

Eu sou sonatas inteiras, e valsas aceleradas
Eu sou vestidos rodados e rosas oferecidas
Eu sou abraços furtados e ofertas de casamento
Eu sou amassos furtivos e esperas interminadas
Eu sou promessas de gozo e crenças no coração
Eu sou carinhos da mão fiel que dá calma ao peito
Eu sou carência no chão que rui à vista do medo
Eu sou carícias de não sopradas ao pé do ouvido
Eu sou a falta do sol no som da noite calada
Eu sou a fonte do som na música repetida
Eu sou sonatas inteiras, e valsas aceleradas.

Eu sou o som persistente nos versos enlouquecidos
Eu sou o verso perene dos mais antigos poetas
Eu sou o verso dos outros que são iguais aos meus versos
Eu sou a valsa que toca ao fundo do dia-a-dia
Eu sou essa melodia que quem vive já conhece
Eu sou o som que só cresce, ainda que diminua
Eu sou a lua minguante que vai voltar a ser cheia
Eu sou o som da sereia de um soneto enraivecido
Eu sou a falsa sonata de um falso compositor
Eu sou o verso que falta no poema que procuro
Eu sou a pena que dita a frase que tento compor.

Eu sou sonatas e valsas, eu sou sonetos e versos,
Eu sou o som que disperso em tons de fora da escala
Eu sou o que desconheço em fala, em voz e palavra
Eu sou o que não se mostra explícito em melodia
Eu sou as notas de fora do sistema temperado
Eu sou o ritmo oculto de um verso acelerado
Eu sou os passos insanos da dança deste salão
Eu sou o som da canção que embala a minha agonia
Eu sou a paz que se esconde entre os pedaços dispersos,
Eu sou os outros espaços, eu sou o tempo perverso,
Eu sou sonatas e valsas, eu sou sonetos e versos.

sábado

How I wish

1. Está definitivamente tarde.
2. Diz por aí que eu vou fazer aniversário.
3. Tou com saudade do Alvinho.
4. Eu até gosto de escrever. Mas não sai nada.
5. Não era nada disso que eu queria dizer.

(Nada a dizer.)




(So, so you think you can tell
Heaven from hell,
Blue skies from pain?
Can you tell a green field
From a cold steel rail?
A smile from a veil?
Do you think you can tell?

And did they get you to trade
Your heroes for ghosts?
Hot ashes for trees?
Hot air for a cool breeze?
Cold comfort for change?
And did you exchange
A walk on part in the war
For a lead role in a cage?

How I wish, how I wish you were here.
We're just two lost souls
Swimming in a fish bowl
Year after year.
Running over the same old ground,
What have we found?
The same old fears.
Wish you were here.)

(Chorando pelo coração e pelo mundo.)

sexta-feira

E talvez não.

quarta-feira

Talvez isto aqui tenha acabado.