No ônibus Butantã-USP sobem dois tipos de pessoa. O primeiro tipo é quem vai descer em Pinheiros, no meio do caminho. A turma gente-boa, variando em torno daquele estereótipo: conversa alta e risada escandalosa, barriga pra fora mesmo que esteja fora de forma, roupa apertadinha e colorida comprada nos saldões da Teodoro, empolgação quando o ônibus pára em frente da barraca de cedê pirata que toca o Forró Calcinha Preta no último volume. Pessoal que não pede licença pra sentar no banco vazio do seu lado, porque ele e você estão à vontade e não precisam pedir licença. Além disso está muito calor, estamos descendo a Cardeal, abre essa janela aí pra mim, moça, brigado.
Mas também tem quem estuda na USP. Sabe, é outro mundo. Do pessoal descoladinho, de papo intelectual, que tira o texto da aula de hoje de dentro da mala de couro e lê compenetrado e olha pro lado e faz careta quando passa perto da barraca do forró.
Estava eu sentada no Butantã-USP.
Eu compro minha roupa nos saldões da Teodoro. E com ela eu faço combinações descoladinhas. Eu comprei muito cedê pirata. Juro: aqueles da coleção de música clássica da Caras. Eu ia descer em Pinheiros, no meio do caminho. Para comprar ingressos de uma apresentação de chôro no Sesc. Já sacou a contradição, né? Eu até gosto do som do forró. Mas os meus alunos, que gostam pra valer do Forró Calcinha Preta, sabem muito bem de que mundo eu vim.
Eu vinha lendo o texto da aula da faculdade, dois vultos passaram do lado e sentaram no banco de trás. Dali a um tempo eu parei de ler, porque não conseguia parar de prestar atenção à conversa entusiasmada deles. Uma hora, rolou isto aqui:
"É que lá na Sociais é mais difícil você tentar ganhar dinheiro. Agora, esse pessoal da Psico, da Letras, eles só tão a fim de dar a aulinha de inglês, abrir o consultoriozinho deles, tirar a grana que der, não tão nem aí pra Ciência."
Sim, pensei eu. A humanidade precisa mesmo apenas de cientistas. A tia que te ensinou a falar inglês no ginásio e a professora que te permite ler teu Lévi-Strauss em francês, e a doutora que agüentou teus pais durante a terapia de casal, elas são completamente dispensáveis ao andamento do mundo.
É foda o ranço marxista não-explícito que diz que querer ganhar dinheiro é um objetivo baixo. O mais nobre é mesmo se dedicar a uma longa e dura e pobre vida acadêmica. Sim, veja só o quanto alguns desses acadêmicos trazem de contribuição para a sociedade. Ciência encurralada em estantes de bibliotecas.
E quem diz isso é alguém que faz trabalho voluntário, e que fechou a conta no banco porque não tem mais nenhum puto.
Aí o papo continuou. Mudou de assunto:
"Ah, a universidade brasileira não contribui com o crescimento da ciência."
Não; é o desenho animado do Bob Esponja que contribui.
"Nessas áreas de Engenharia, e tal, eu já não sei. Mas vamos pegar uma área que a gente conhece... sei lá: música, literatura, por exemplo. Enquanto a universidade fica nessa coisa ufanista, nacionalista, de só estudar gente babaca como Villa-Lobos, Mario de Andrade... aí a nossa arte não cresce!"
"Pode crer."
"E olha pra galera que a gente conhece, que a gente convive: o pessoal só conhece até Wagner, no máximo; a coisa maaaaaais ousada que eles ouvem é Debussy. Se você fala de Stravinksy, é um absurdo. Ninguém conhece nada tipo o Schoenberg, ou então já desqualifica sem saber."
Eu ia dizer, indignada, "meu amigo, o Schoenberg é um porre!", mais pra vingar Villa-Lobos e Mario de Andrade, mas percebi a tempo o quanto isso ia ser despropostiado. Veja bem: quem gosta de Schoenberg ou pira muito na música e já atingiu um patamar de sensibilidade artística muito acima daquele dos meros mortais... ou então quer posar de sabido. Pra você, meu amigo, eu voto na segunda opção.
(Se você não conhece, pode dar uma olhada na
Wikipédia, em português ou
em inglês que é bem mais completa. Eu também não conheço. O lance dele é o atonalismo e principalmente o dodecafonismo, corrente muito respeitável. Você pode também pegar seu software de P2P e baixar o
Pierrot Lunaire, pra chegar, como eu, à conclusão, talvez precipitada, mas muito razoável, de que não gosta de ouvir uma mulher gemendo e gritando em alemão sobre um fundo de notas e acordes que não seguem nenhum campo harmônico.)
Os dois continuaram proferindo outros impropérios do mesmo porte. Falando mais merda, né — depende de qual perfil você preenche no Butantã-USP. Até condescenderam em reabilitar o Villa-Lobos, "misturar Stravinsky com chorinho, ele fez um lance bacana, e tal... mas tanta gente fez muito mais coisa!" — eu juro que ele terminou o raciocínio com uma frase assim vaga e imbecil. O assunto mudou de novo, e quando eu levantei para descer do ônibus um dos garotos falava alguma coisa sobre como os intelectuais falam besteira no Brasil. No duro.
Aí, no corredor, a caminho da porta, segundos antes do ônibus chegar ao ponto, me deu uma curiosidade incontrolável. Eu precisava ver os tipos daqueles caras, dar um rosto para a estupidez que iria me atormentar nos próximos dias. Virei o rosto e contemplei os dois uspianos descaradamente. Os dois vestiam camisa colorida, usavam o cabelo despenteado, costeletas discretas e a barba crescidinha, pulseirinhas de couro, bolsa a tiracolo. Eles tinham acabado de sair de
O Que é Isso, Companheiro? — ou, pior: daquele do Casseta & Planeta,
A Taça do Mundo É Nossa, que tem também uns gerrilheiros urbanos do tempo da ditadura. Satirizados, é claro.