Em dia com a fome

           [Olha que não há mais metafísica no mundo
           senão chocolates.
]


sexta-feira

Já publiquei uma vez: I'll be your mirror, reflect what you are in case you don't know. Pra dizer isso a todos os meus amigos. Deu vontade de dizer de novo, e pra alguns em especial.

Pro Alvarinho, que vai viajar. Acho que eu não consigo imaginar quanta saudade vou sentir. Só vai doer mesmo é na hora. Fazer o quê, a amizade às vezes é meio burra. Obrigada por tudo o que a gente dividiu. Tudo o que a gente conversou, questionou e explicou, contou e ouviu, pediu e recebeu; e pelos momentos em que aprendemos tanta coisa juntos. Um monte de coisa, que Deus fez cair lá do céu e nos deu de presente. Você, junto com a Maíra e a Mariana, vocês três: vocês me fazem muito melhor. E, além de tudo, também não tem coisa melhor que falar bobagem e rir de bobeira com vocês — e depois ficar sério pra orar, discutir, compartilhar.

Pra Lu, que parece que está chorando por dentro. Mas hoje é aniversário dela, e ela deve estar feliz. Eu queria lembrar de todas as coisas que já te deram força pra recordá-las pra você. Queria lembrar das coisas que também me deram força alguma vez na vida, pra ver se podem te ajudar. Mas, no fundo, queria só te dar um abraço e te ouvir. Vai passar.
(Aniversário é pra comemorar. Tristeza tá proibida...)

Pro Flávio, que está entrando no seu retorno de Saturno.

Pro Beto, que não lê o que eu escrevo. Então não vou escrever.

Pra Beta, que está trabalhadeira, e cansada pra burro. Né? :-) Eu acredito que a vida surpreende a gente. E que um dia ela pode fazer a gente ficar cada vez mais próximas.

Pra Julinha. Pra Carol. Pra Vivi. Pra Aline. Pra Maria. Pro Elias. Pros demais.
Pra Nathália. Pro Henrique. Pro Felipe. Pro Luiz Philipe. Pro Bayma. Pro Bira.
Pra Talita.
Pra Samara que vai ser mãe.
Pra Cátia, que, dez anos depois, talvez esteja em Lisboa, talvez esteja feliz, talvez esteja viva.
Pro Paulo, que deve estar em Évora e deve mesmo estar feliz.

Pra gente como a Kátia, o Alika, o Sidney, todos do ALFA e mais uma galera; de quem eu gosto daqui onde estou, ou então de quem eu gosto sem conhecer.

Pra uma garota que eu conheci estes dias, e que disse que lia o meu blogue.

(Pra você, meu melhor amigo.)

segunda-feira

Iletrada

Dá vontade de pedir às coisas do mundo: falem. Digam o que eu não sei dizer. Às músicas, principalmente às instrumentais; aos quadros, principalmente aos abstratos; às coisas etéreas, não-verbais, não-literais. Aos beijos na boca, às brisas, aos pianos, às cores, aos berros: gritem comigo, e gritem por mim; e preencham o espaço branco do meu blogue e da minha vontade.

Porque as situações que me envolvem são concretas demais, e há letras demais ao meu redor.

.:.

(Em 23/04, na semana passada, na estrada:


A cidade é a aflição constante.

No bairro, na avenida, no ônibus, no terminal,
Na Marginal,
São as obras e placas e setas e lojas
Que não deixam o olho quieto
— que nunca se saciam de leitores,
Condenados a decifrá-las.
(Ou você consegue se impedir?)

Até se eu fecho a cortina, ela me avisa, sem eu pedir,
SAÍDA DE EMERGÊNCIA.
Até no meu colo há um livro
E, lá fora, tudo é um grande outdoor de concreto.

Queria ser como estrangeira que, aqui, não sabe ler.
Ou queria olhar a cidade sob uma condenação mais leve,
Vendo só riscos e desenhos,
Com a placidez imperturbada de um analfabeto.)

sexta-feira

Uma noite de trabalho

Clique aí embaixo e descubra muito sobre mim.
(Mas se lembre: quando a gente ouve isso, "descubra sobre mim", a gente deve saber que só vai descobrir o que quer ser mostrado.)



(E, agora, o trabalho é outro: preciso acabar o jornal do ALFA.)

quinta-feira

Madrugada

Os olhos pesam como se fizessem parte do escuro pesado lá de fora, e brigassem para matar a luz elétrica. Os olhos ardem.
Os olhos querem soltar lágrimas na madrugada, mas eu não deixo. Chorar por causa da tela do computador até passa, mas chorar de tristeza, não — hoje não.
De madrugada,
Me sinto tão confortável em mim mesma que me assumo inteira,
E só falta a coragem de perceber a transformação.

Que é que falta,
Se nesta madrugada parece que eu tenho tudo ao meu redor;
Mas está cada coisa guardada na sua caixinha esperando pela sua hora que alguém disse que ia chegar,
E a madrugada vai passando sem perceber, e eu vou passando sem reparar que as tampas das caixinhas pegam pó.
Se eu chutasse todas elas elas abriam e soltavam meus brinquedos. Mas vou ser como Pandora: se eu nem os conheço, eles quebram na primeira chance.
Se eu limpasse cada uma e destrancasse cada fecho e levantasse cada tampa, aí eu seria feliz. Se, antes, conseguisse matar cada um dos gigantes que senta com a bunda gorda em cima do pó das caixinhas. Mas, matando os gigantes, eu também me mato um pouquinho.
E é por isso que acredito que as caixinhas têm bálsamos.

Chorar de tristeza, não. Se chorasse, ia ser de melancolia pura — daquela que segue a etimologia e é, portanto, negra. Nociva. Viscosa. E fascinante.
Mas não tenho aqui um colo pra chorar meu visco preto:
Comi a chave da caixinha do conforto.

terça-feira

Dispersos

Então, meu Deus,
tem certeza que era mesmo o Ratzinger?...

(Não sei conjugar latim para transformar Habemus papam em "haveis vós o vosso papa, que eu não tenho nada a ver com isso".)

Hoje de manhã, antes da fumaça branca (e tão rápido, meu Deus!), um sujeito chamado Bertrand de Orléans e Bragança [!], trineto de D. Pedro I [!!] e com algum cargo superior na TFP [!] assinava um artigo (o link é para quem tem acesso ao conteúdo restrito da Folha) na página 3 da "Folha de S. Paulo", em linguagem macarrônica digna do Ouviranduipiranga, pedindo que o próximo papa fique bem longe da chamada "esquerda católica" e preserve "as verdades eternas, as únicas realmente salvíficas" - aquelas do aborto, da anticoncepção, do homossexualismo, das células-tronco, do lugar da mulher, e, mais ainda: do sagrado direito da propriedade e da total desimportância das lutas sociais, além de outros mais. Coisas realmente centrais e importantíssimas em qualquer passagem do Evangelho.

E eu me pergunto por que o Espírito Santo parece ter ouvido e respondido com tanta exatidão as pias orações do trineto do D. Pedro e não as minhas, se o meu pedido de ter um papa progressista era tão despropositado quanto o dele.

Mas, no fundo, vai saber quem é que alcança os ouvidos divinos.

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Outra coisa: Uaaau. O blogue do Sobral é de primeira. E o meu ego cresceu depois de estar linkada no canto do blogue do Sobral. E, enfim, é maneiro reencontrar o Sobral.

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E a última coisa: Migrei. De sistema operacional, é claro. Do software proprietário para o software livre (SL).

Escrevo do meu super-bacana Ubuntu, com o slogan delicioso de "linux for human beings". Baseado em Debian - algo que, por sua vez, realmente não é feito para seres humanos - mas com interface acolhedora pra pseudo-nerds que no fundo não manjam é nada dessa coisa chamada informática. Pra mim, enfim. Ainda não sei fazer quase nada dentro dele (a não ser aquelas coisas que a gente já fazia com a interface do Windows). E ainda uso o computador em dual-boot, mantendo a possibilidade de usar o Windows e o Linux. Mas poxa, comecei a migrar.

Com isso, eu subo um patamar na minha campanha entusiasmada pelo software de fonte aberta. Que não precisa ser adotado por razões políticas, mas sim porque realmente funciona melhor; e não precisa ser adotado com uma mudança brusca, mas pode ser adotado aos poucos. Usando o Firefox, por exemplo: um navegador de internet mais seguro e mais rápido que o Internet Explorer, em que você pode personalizar desde a aparência até as sofisticadas opções de navegação, e que foi desenvolvido pela respeitável Mozilla. No momento em que eu escrevo, o programa já completou 46 milhões de downloads, e talvez comece a ameaçar pra valer a onipresença da Micro$oft. Porque, no momento em que você lê, pode ser que sejam mais do que 46 milhões.

Os passos são mesmo muito simples: 1- baixe, 2- rode, 3- fique deslumbrado, 4- esqueça o Internet Explorer, 5- sinta orgulho de usar SL.

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Então, meu Deus,
mas não tem volta mesmo?!

domingo

Entre irmãos: bateu, tomou de volta

Eu ameacei pro Serginho:
"Cuidado, que eu tenho os reflexos de um jedi", e me empolguei: "E a força do Chewbacca."

E ele pegou no ato:
"E a cara do mestre Yoda."

sábado

À esquerda

No ônibus Butantã-USP sobem dois tipos de pessoa. O primeiro tipo é quem vai descer em Pinheiros, no meio do caminho. A turma gente-boa, variando em torno daquele estereótipo: conversa alta e risada escandalosa, barriga pra fora mesmo que esteja fora de forma, roupa apertadinha e colorida comprada nos saldões da Teodoro, empolgação quando o ônibus pára em frente da barraca de cedê pirata que toca o Forró Calcinha Preta no último volume. Pessoal que não pede licença pra sentar no banco vazio do seu lado, porque ele e você estão à vontade e não precisam pedir licença. Além disso está muito calor, estamos descendo a Cardeal, abre essa janela aí pra mim, moça, brigado.
Mas também tem quem estuda na USP. Sabe, é outro mundo. Do pessoal descoladinho, de papo intelectual, que tira o texto da aula de hoje de dentro da mala de couro e lê compenetrado e olha pro lado e faz careta quando passa perto da barraca do forró.

Estava eu sentada no Butantã-USP.
Eu compro minha roupa nos saldões da Teodoro. E com ela eu faço combinações descoladinhas. Eu comprei muito cedê pirata. Juro: aqueles da coleção de música clássica da Caras. Eu ia descer em Pinheiros, no meio do caminho. Para comprar ingressos de uma apresentação de chôro no Sesc. Já sacou a contradição, né? Eu até gosto do som do forró. Mas os meus alunos, que gostam pra valer do Forró Calcinha Preta, sabem muito bem de que mundo eu vim.

Eu vinha lendo o texto da aula da faculdade, dois vultos passaram do lado e sentaram no banco de trás. Dali a um tempo eu parei de ler, porque não conseguia parar de prestar atenção à conversa entusiasmada deles. Uma hora, rolou isto aqui:

"É que lá na Sociais é mais difícil você tentar ganhar dinheiro. Agora, esse pessoal da Psico, da Letras, eles só tão a fim de dar a aulinha de inglês, abrir o consultoriozinho deles, tirar a grana que der, não tão nem aí pra Ciência."

Sim, pensei eu. A humanidade precisa mesmo apenas de cientistas. A tia que te ensinou a falar inglês no ginásio e a professora que te permite ler teu Lévi-Strauss em francês, e a doutora que agüentou teus pais durante a terapia de casal, elas são completamente dispensáveis ao andamento do mundo.
É foda o ranço marxista não-explícito que diz que querer ganhar dinheiro é um objetivo baixo. O mais nobre é mesmo se dedicar a uma longa e dura e pobre vida acadêmica. Sim, veja só o quanto alguns desses acadêmicos trazem de contribuição para a sociedade. Ciência encurralada em estantes de bibliotecas.
E quem diz isso é alguém que faz trabalho voluntário, e que fechou a conta no banco porque não tem mais nenhum puto.

Aí o papo continuou. Mudou de assunto:

"Ah, a universidade brasileira não contribui com o crescimento da ciência."

Não; é o desenho animado do Bob Esponja que contribui.

"Nessas áreas de Engenharia, e tal, eu já não sei. Mas vamos pegar uma área que a gente conhece... sei lá: música, literatura, por exemplo. Enquanto a universidade fica nessa coisa ufanista, nacionalista, de só estudar gente babaca como Villa-Lobos, Mario de Andrade... aí a nossa arte não cresce!"

"Pode crer."

"E olha pra galera que a gente conhece, que a gente convive: o pessoal só conhece até Wagner, no máximo; a coisa maaaaaais ousada que eles ouvem é Debussy. Se você fala de Stravinksy, é um absurdo. Ninguém conhece nada tipo o Schoenberg, ou então já desqualifica sem saber."

Eu ia dizer, indignada, "meu amigo, o Schoenberg é um porre!", mais pra vingar Villa-Lobos e Mario de Andrade, mas percebi a tempo o quanto isso ia ser despropostiado. Veja bem: quem gosta de Schoenberg ou pira muito na música e já atingiu um patamar de sensibilidade artística muito acima daquele dos meros mortais... ou então quer posar de sabido. Pra você, meu amigo, eu voto na segunda opção.

(Se você não conhece, pode dar uma olhada na Wikipédia, em português ou em inglês que é bem mais completa. Eu também não conheço. O lance dele é o atonalismo e principalmente o dodecafonismo, corrente muito respeitável. Você pode também pegar seu software de P2P e baixar o Pierrot Lunaire, pra chegar, como eu, à conclusão, talvez precipitada, mas muito razoável, de que não gosta de ouvir uma mulher gemendo e gritando em alemão sobre um fundo de notas e acordes que não seguem nenhum campo harmônico.)

Os dois continuaram proferindo outros impropérios do mesmo porte. Falando mais merda, né — depende de qual perfil você preenche no Butantã-USP. Até condescenderam em reabilitar o Villa-Lobos, "misturar Stravinsky com chorinho, ele fez um lance bacana, e tal... mas tanta gente fez muito mais coisa!" — eu juro que ele terminou o raciocínio com uma frase assim vaga e imbecil. O assunto mudou de novo, e quando eu levantei para descer do ônibus um dos garotos falava alguma coisa sobre como os intelectuais falam besteira no Brasil. No duro.

Aí, no corredor, a caminho da porta, segundos antes do ônibus chegar ao ponto, me deu uma curiosidade incontrolável. Eu precisava ver os tipos daqueles caras, dar um rosto para a estupidez que iria me atormentar nos próximos dias. Virei o rosto e contemplei os dois uspianos descaradamente. Os dois vestiam camisa colorida, usavam o cabelo despenteado, costeletas discretas e a barba crescidinha, pulseirinhas de couro, bolsa a tiracolo. Eles tinham acabado de sair de O Que é Isso, Companheiro? — ou, pior: daquele do Casseta & Planeta, A Taça do Mundo É Nossa, que tem também uns gerrilheiros urbanos do tempo da ditadura. Satirizados, é claro.

quinta-feira

Feels Like Home

Surprise, surprise
Couldn't find it in your eyes
But I'm sure it's written all over my face
Surprise, surprise
Never something I could hide
When I see we made it through another day



Quando eu estava em Moscou
(upside-down, bouleversée)
a tevê a cabo do quarto do hotel Russia tinha um canal francês chamado Mezzo, Medzô, que passava música atrás de música.
Enquanto estava no quarto, eu ouvia o Mezzo.
No "top 10" do Mezzo da semana em que eu estava em Moscou,
o primeiro lugar era do último CD da Norah Jones, Feels Like Home.
E a música Sunrise tocava a toda hora que se falava do top 10 do Mezzo.
O comecinho da canção me deixava apaixonada,
já que eu estava apaixonada por tudo o que via na frente,
e tudo o que eu via me despertava mais paixão ainda pelas outras coisas também.
(Eu cheguei aqui e baixei o CD inteiro, mas só gosto de ouvir Sunrise.)

Me mexe o estômago,
agora que a lista gerada ao acaso no programa de música do computador começou a tocar Norah Jones, e o baixo de três notas do começo de Sunrise, e a percussão, e os acordezinhos de piano, e de repente aquela voz única.
(Que eu ainda não sei se é boa ou ruim, ou se merecia o top 10 do Mezzo. Só sei que é única.)

Sunrise, sunrise
Looks like mornin' in your eyes


Monta a cena na cabeça.
Norah Jones combina com o momento de tirar ou colocar de novo o cachecol e as luvas de couro pechinchadas em russo numa feira popular que combina com bacon e ovos no café da manhã que combina com a irritante versão original da música da festa no apê do Latino que combinam com neve caindo fininha e o relógio lá fora marcando 0ºC que combinam com meu pai de bom humor maldizendo o frio que combina com o mapa surrado e anotado no bolso que combina com todas as letras cirílicas que eu decifrei na Rússia que combinam com todos os lugares que emanavam alguma espécie de mágica no meio do vento gelado que combinam com um indizível aperto no coração dentro de um quarto de hotel com vista para o rio Moskvá, para as muralhas vermelhas do Kremlin e para as cúpulas coloridas da catedral de São Basílio.

O coração aperta agora um pouquinho, sem explicação, só porque acostumou a se sentir assim quando ouviu primeiro a Norah Jones em Moscou. It felt like home.

quarta-feira

Anatomia

Olheiras profundas sob os olhos, cada vez mais difíceis de disfarçar com maquiagem; olhos brilhantes mas cansados.

Cabelos precisando de uma aparada nas pontas.
Cravinhos e uma espinha ou outra.
Dentes persistentemente amarelos — sem cigarro, sem café e com muito flúor.
Pelos periodicamente combatidos com cera quente e amoníaco.
Unhas gritantemente vermelhas.
Costas da mão esquerda queimadas com óleo de fritura.
Picadas de pernilongo nos braços.
Pneuzinhos na barriga, gordura localizada nas coxas, celulite, uns cinco quilos a mais.

Joelhos e canelas cheios de cicatrizes da infância; calos nos pés.

segunda-feira

E mostrar a dor

[Escrito há semanas, quando tudo isto ainda estava em pauta. Já hoje, o jornal me diz que o Iraque tem um presidente curdo e tem xiitas no governo, que os chineses foram às ruas em massa e que os palestinos protestaram em Israel contra os assentamentos e a morte de três adolescentes que jogavam futebol e foram baleados por soldados israelenses. E que ameaçam uma "terceira intifada" (já acabou a segunda?).] :


"Aos gurus da Índia
Aos judeus da Palestina
Aos índios da América Latina
E aos brancos da África do Sul

O mundo é azul
Qual é a cor do amor
O meu sangue é negro, branco
Amarelo e vermelho

Aos pernambucanos
E aos cubanos de Miami
Aos americanos, russos
Armando seus planos
Ao povo da China
E ao que a história ensina
Aos jogos, aos dados
Que inventaram a humanidade

As possibilidades de felicidade
São egoístas, meu amor
Viver a liberdade, amar de verdade
Só se for a dois
Só dois

Aos filhos de Ghandi
Morrendo de fome
Aos filhos de Cristo
Cada vez mais ricos
O beijo do soldado em sua namorada
Seja pra onde for
Depois a gande noite
Vai esconder a cor das flores
E mostrar a dor


Me sinto triste porque Aslan Maskhadov foi assassinado pela polícia secreta russa. Quem o matou vai ser condecorado. A FSB admitiu sem pudor que ele era o alvo.
Me sinto triste porque vi o seu cadáver na internet, e os jornais online que eu li não usavam a palavra "assassinado". "Foi morto", eles diziam. E, rebelde ou não, ele foi assassinado.
Me sinto triste porque pelo que eu sei ele era, fundamentalmente, um moderado. E porque, agora, viúvas chechenas devem morrer depois dele, no encalço dele, ao revés dele, matando russos e lutando... por que mesmo? Pela autonomia chechena, ou pela vingança do marido morto?

Me sinto triste porque Vladimir Putin ainda é o presidente da Rússia, George Bush ainda é o presidente dos EUA, Ariel Sharon ainda é o primeiro-ministro de Israel, Silvio Berlusconi ainda é o premier da Itália, e FHC ainda é o presidente do Brasil.

Ah, não é mais? Não deu pra reparar.

Me sinto triste porque Lula não é o presidente do Brasil. Me sinto muito triste porque Severino Cavalcanti é o presidente da Câmara dos Deputados do Brasil.

Me sinto triste porque a renúncia de Carlos Mesa era uma manobra tipo Jânio Quadros, e porque, agora que o Senado cedeu, o povo boliviano vai continuar tendo que emigrar para São Paulo.

Me sinto triste porque o Afeganistão e o Iraque agora são governados por "governos populares" sob o estrito mando estadunidense.

Me sinto triste porque os acordos de Mahmud Abbas com Ariel Sharon não significam paz, mas sim que depois da morte de Arafat a Palestina está cada vez mais nas mãos de Israel e sem poder de negociação.

Me sinto triste porque os passageiros de um carro jogaram hoje de noite o lixo pela janela no meio do asfalto.

(Dedicado à voz da roqueira lésbica Cássia Eller gritando por paz,
de dentro do coração ingênuo de uma menina cristã.
Gritemos.)"

quinta-feira

Se alguém perguntar por mim
Diz que eu fui por aí
Se quiserem saber
Se volto diga que sim
Mas só depois que a saudade se afastar de mim
Só depois que a saudade se afastar de mim.

Chá de camomila

Plácidas crenças. Quem ainda acredita
No príncipe-encantado, que pode ser travestido sob tantas promessas
No fundo é só isso que costuma ganhar importância
E ninguém mais acredita em si mesmo.

Sobrou só a fé em Hollywood.

Eu gosto da história da princesa que casa com o ogro.
Gosto de cada pedacinho, mas gosto principalmente porque no final ela também vira ogra.
Como é que ninguém entende a única coisa que ainda resta de genuíno,
Como é que se ignora o resgate
("You come to my rescue, rescue")
Ninguém mais acredita que a coerência
Só pode passar por acreditar em si mesmo
Ninguém mais tem essa coragem.

Eu nem sou de outras épocas
— daquelas a que a retórica se remete para opor um tempo puro à degeneração do presente —
Nem estou fora do lodo.
Se falo é porque meu único jeito de viver é gritando por dentro,
E tentando encarar todos os dias quem não ouve grito nenhum.
Cada dia é mais difícil.

Ô.
Me dá um abraço, pelo menos. Pelo menos em algo a gente deve poder ser gente ao mesmo tempo.

Insônia

O céu é só uma promessa,
minha cabeça não agüenta mais.


Ofendida, eu fui dormir. Rezei, chorei mais, pensei. Mas pensei demais. Perguntei pra Deus: "afinal, você quer que eu volte, é isso?". Chorei mais forte, levantei da cama, liguei o computador de camiseta e calcinha e peguei o material pra ler. Uma página de jornal. Levantei, peguei a Constituição na estante, conferi o artigo 48. É competência do Legislativo dispor sobre o sistema tributário, a arrecadação e a distribuição de rendas. MP sobre taxação é, portanto, incoerente com a Constituição. Vai entender. Outra página de jornal. Elisão fiscal, o que é isso. Internet. Advogados escrevem muito mal, por definição; assim como médicos têm letra feia, como professoras de português nunca deixam de pronunciar o plural das palavras e como jornalistas acabam a vida afundados no álcool, na pindura e na desilusão. Levantei, peguei o pacote de bolacha e um pratinho pras migalhas. Outra página de jornal. E várias páginas enquanto fervia a água do café. Dá pra dois copos. Mas acabou o açúcar, e eu odeio café com adoçante. Quem inventou o adoçante, não dá pra engolir café com adoçante. Engorde, ora bolas, problema seu. O meu eu já resolvi. E o segundo copo espera passar o gosto ruim do primeiro na minha boca.

Quem mandou. Se tivesse escolhido de uma vez ser jornalistinha de araque, dava pra fingir ser ética e "responsável" e comprometida com o bem público. Agora não: além de não ter mais jeito a não ser se empenhar, ainda se tem que agüentar pedrada.

Quem mandou. O meu namorado pediu "Ressuscita-me", e agora não adianta falar de deveres e de morais e de veja-lá-o-que-você-vai-fazer, porque eu quero é que se foda, ninguém mandou acreditar em mim, dentro de uma sala de aula de uma universidade elitista tem analfabetos que acreditam em mim apesar dos outros que nem-tanto, e quem mandou botar fé porque agora quem me achar impulsiva ganha outra banana.

Engole essas conclusões que nasceram aí na cabeça. Eu não sei quem me lê. Ninguém mais me lê. Então é bom falar para ninguém. Dá pra ser simples. Então acredite: eu me esforço até o tutano pra engolir as conclusões leves. Por isso eu falo pouco. Por isso eu compartilho pouco. Porque eu compartilho o que tenho pra dar que realmente seja forte. Quem disse que eu consigo engolir todas elas. Engole essas conclusões, que eu não sou carne morta pra abutre bicar. E quem discordar, que passe bem.

Sabe por que eu voltei? Porque chorei tanto que, afinal de contas, não ia mesmo conseguir dormir.

terça-feira

A historinha da melancia

"Então, Luzia, viu, isso aqui é a internet. Eu vou apertar aqui, olha, neste espacinho em branco, que é onde se escreve o endereço da página que a gente quer acessar. O endereço é este aqui, do Estadão, olha, pronto, já escrevi. Depois eu te explico isso com mais calma. Agora eu quero que você olhe esse site enquanto eu vou lá com o Edson, e depois me diga o que tem na página do Estadão. Tá bom?"

Claro que devia estar bom, foi uma pergunta retórica. Parei ontem para pensar e ver que a palavra "aluno" significa "sem luz". A Luzia sabe e sente que ela é a aluna, e que por isso tem que fazer o que a professora pede — mesmo que o pedido não tenha o menor sentido. E a professora do pedido sem sentido sou eu.

"Professora, eu não gosto de comer melancia" — isso foi quando eu era a aluna. Primeira série. Colégio de professores japoneses e disciplina japonesa. "Hayaku, hayaku!", gritava irada a Dona Rosana, para apressar a refeição das criancinhas. No começo das aulas eu tinha chamado a Dona Rosana de "tia Rosana", porque, antes dela, eu tinha tido professoras bacanas. Mas a professora japonesa respondeu "Eu não sou sua tia, meu nome é Dona Rosana". Aprendi seu nome e junto aprendi a ter medo dela.

Então a Dona Rosana olhou para mim e para o meu prato de melancia, com uma expressão que não deixava dúvida sobre o que ela ia dizer. "Come rápido, vai. Quem não comer a sobremesa não vai para o parquinho depois da aula." A criancinha fez força para comer cada pedaço da melancia, e depois a criancinha subiu ao banheiro e vomitou a melancia. Desceu chorando para falar com a professora.

Engraçado, a memória de criança da gente. Tem quem diga que o bebê não é capaz de lembrar do nascimento porque carregaria uma recordação traumática, assustadora, para o resto da vida. A gente só sabe do momento em que nasceu porque contam sobre ele para a gente: minha mãe conta que eu precisei do fórceps. Também foi ela quem me confirmou, há um tempo, como foi o final da historinha da melancia. Mas, se procurar bem, eu tenho só uma imagem na memória, uma cena congelada, de estar chorando, segurar um paninho e limpar a sujeira do banheiro.

Do parquinho depois da aula... não, eu não me lembro.

E hoje tenho outra aula com a Luzia. Ela já não fala mais "professora": já me chama de "Di". Mesmo porque a Di ainda tem que aprender muito antes de se sentir professora.

segunda-feira

"Apesar de outros cristãos terem iniciado uma cruzada contra o Islã, também é preciso elogiar a voz do papa em prol da paz mundial."
COMUNICADO DO TALEBAN, GRUPO RADICAL ISLÂMICO

Uau.

sexta-feira

Instruam-me

Que quer dizer "bundalelê"? (Sabe, aquele que vai rolar no apê do Latino.)