O Hospital das Clínicas é self-service. Hoje cheguei lá às 10h20, horário em que os acompanhantes já pegaram as macas na sala das macas e já carregam seus familiares pelos corredores e elevadores, subindo ou descendo o Prédio dos Ambulatórios pela terceira ou quarta vez, da sala de exames para a injeção, da injeção para a fila, da fila para o médico, do médico para o guichê da próxima consulta, do guichê para a farmácia.
Já chegaram também os outros pacientes, ou seus acompanhantes, para a fila da consulta da hematologia. Cada um carrega uma espécie de prontuário improvisado, com as cópias dos exames, o cartão da quimioterapia, as próprias etiquetas para identificar os repetitivos hemogramas. Fazem os exames, pegam os resultados (subiu a taxa de glóbulos brancos? Que bom, não precisa da injeção de Granulokine. Hum, mas desta vez as hemáceas diminuiram, é bom receitar ferro...) e entram na fila para retirar a senha e esperar pela consulta das 14h. Que vai acabar acontecendo às 16h.
Estou nessa turma. Quem faz isso da primeira vez fica perdido com as idas e vindas no elevador, e leva algum tempo para saber qual é agora o próximo passo no self-service do HC. "Oi, você me ajuda? Já fiz o exame, agora é nesta fila que eu pego o resultado?" Não, mocinha, o resultado sai no Hospital-Dia, no 1º andar. Não, mocinha, você não está no 1º andar; aqui é o 5º. Ah, é que o térreo na verdade é o 4º andar. O 1º fica no subsolo, pega o elevador. Entendeu? A mocinha vinha trazer a mãe para a segunda consulta da hemato. É novata. Eu já entrei no esquema: além de não me perder, já estou dando informações.
Depois de algumas semanas, você vê que a quimioterapia no HC é uma grande comunidade. Você passa a reconhecer os rostos, lembrar dos casos, acompanhar os tratamentos — que nunca são iguais. Quando cheguei perguntando quem era o último da fila, recebi a resposta de um rosto familiar: um senhor tranqüilo e digno que estava por lá também nos outros dias. Ele tem um semblante sério que parece, no entanto, que vai começar a sorrir a qualquer momento. Anda devagar, como se os passos fossem uma afirmação de autonomia, um esforço para suportar com dignidade e calma o fato de estar pálido e careca.
O papo nas filas do HC é fácil. Então o senhor me contou que não parou de trabalhar durante todo o tratamento. Só diminuiu o ritmo das visitas aos clientes. Ele é vendedor. Está quase no fim das sessões de quimio: já fez sete ciclos, vai fazer o último em breve. A última tomografia já tinha mostrado que os linfomas desapareceram.
"Ah, o caso do meu pai é linfoma também."
"Não-Hodkgin?"
"É."
"Igual o meu. Como ele descobriu?"
Puxando papo com mais pacientes, com os funcionários, com as médicas, descobri que nas manhãs de terça-feira só são atendidos os pacientes com Linfoma Não-Hodgkin. LNH, na sigla da carteirinha de quimioterápico, como uma senhora fez questão de me mostrar enquanto reclamava da demora. Eu, depois de um tempo, não reclamo mais da demora no HC. Basta ter a disposição de passar o dia inteiro lá, esquecer qualquer intenção de fazer outra coisa durante o dia, lembrar que aquele é o melhor tratamento que se pode receber em São Paulo (começo a achar que é até melhor que o de um plano de saúde) e se distrair com o que estiver à mão. E aprender. Essas conversas com os colegas da quimio, por exemplo, me ensinam muito. Ouvi de muita gente que o linfoma se alastra rápido, mas também tem uma cura mais fácil que os tumores convencionais. Cada paciente se torna especialista no assunto ao falar da própria doença.
E, depois, reconheci mais uns três ou quatro rostos na fila da consulta. Vi o primeiro rapaz com quem conversei, cuja mulher também tinha linfoma, tinha ficado deprimida quando perdeu todo o cabelo, mas já estava chegando no final do tratamento; e a senhora que me contou ter reagido tão bem à quimioterapia que não sentiu dor nem náuseas e até ganhou peso — ela me passou a receita da sopa de fubá com carne que ela costumava fazer quando não tinha muito apetite. "Ah, a gente tem que ficar forte, mesmo quando não quer comer." Pois é. Também vi uma mulher que usa lenços bonitos na cabeça e tem um rosto de feições fortes, determinadas, e serenas. Com ela, ainda não conversei.
(Os outdoors anunciam o shampu da Dove que trata bem a todas as mulheres, mas beleza mesmo está nas mulheres carecas da quimioterapia. A força que emana da sua vaidade, dos rostos cuidados e maquiados e dos lenços compridos, que chegam à cintura, como cabeleiras coloridas de desenhos e flores, me comove mais que tudo naquele hospital.)
Ao meio-dia chegam os últimos da fila, terminando de encher as cadeiras que forram as duas paredes do corredor. Pouco depois, o guichê começa a distribuir as senhas. A fila tem que andar, a espera agora é em pé. Mexer o corpo anima quem já começava a pegar no sono, começam algumas conversas animadas. A maioria versa sobre os diagnósticos, os tratamentos, as expectativas de quem se trata. Trocando opiniões e informações, explicando o próprio caso mais uma vez, todo mundo tem um pouco de médico e louco.
Assim, enquanto todo mundo na fila é médico, uma mulher louca dá um grito de repente e chama a atenção, dizendo devagar e ritmando as sílabas, "você tá falando comigo? Tá fa-lan-do co-mi-go? Você qué vê como eu a-rre-ben-to a sua cara?". E caminha lentamente para o começo do corredor, arrastando o salto-alto velho e a roupa mal-combinada, de queixo erguido e olhar perdido. Murmura, sem pudor: "Arrombada..." e deixa atrás de si um burburinho em torno da mulher atacada. E essa aí fica tentando explicar para quem está ao redor que ela só estava conversando normalmente com a moça.
A fila anda. Cada paciente sai da sala do guichê com seu papelzinho e o número da senha, e volta a ocupar as cadeiras, agora sem muita ordem. Da outra vez em que vim para a consulta meu papelzinho anunciava "Espera estimada: 2h30". Hoje, ele diz "Espera estimada: *". Deve ser um mau sinal.
Enquanto se espera, portanto, tem de se achar meio de passar o tempo. Lê-se qualquer jornal, quem gosta lê um livro, quem sabe faz crochê, quem tem vontade conversa. Uma "Banca Móvel" passa de vez em quando no corredor para vender as indefectíveis palavras-cruzadas e mais uma variedade de revistas. A mocinha anuncia: "revista de receita, receita de coxinha, coxinha assada, coxinha de calabreza, aprenda a fazer coxinha, faça coxinha pra vender na praia..." A gente então imagina os pacientes de quimioterapia tapando todo o corpo, cobrindo a careca, magros e débeis, tentando andar na areia e elevar a voz fraca para anunciar as coxinhas que aprenderam a fazer no hospital na fila da consulta da hemato. A gente chega à conclusão de que a mocinha estava fazendo piada, mas ela continua empurrando o carrinho devagar, séria e persistente, sem sinal de brincadeira. Atrás do carrinho, a revista Tititi dava a manchete da novela: "Reginaldo tem morte trágica". Ninguém comprou revista nenhuma.
No meio das conversas discretas, alguém comenta sobre os dois irmãos do Lula que morreram no mesmo mês. E o presidente vira o assunto daquela turminha. "Ele é um sem-vergonha, um filho da puta. Quando você vê o Lula falar em saúde? Nunca vi."
A maioria concorda, mas tem um corajoso na fileira da frente. "Pior que ele é o Fernando Henrique!"
Começou a discussão de política. O moço que tem raiva do Lula lembra de números, informações, fatos "que o repórter falou na tevê", argumentos sem-fim contra o presidente. Mas a maioria só está a fim de piada. Quando alguém comenta o gasto do governo, um outro não perdoa: "Fora o que ele gasta na cachaça!".
"Cachaça nada, agora ele toma é uísque."
"É, uísque com farinha..."
Para agüentar a quimio, é preciso ter bom humor. Tem um senhor que é piadista incontrolável. "Sabe que na semana passada eu comprei um secador, e o motor dele já queimou! Não aguentou, de tanto cabelo..." Debaixo da boina, uns fiozinhos grisalhos, curtinhos, começam a nascer. Meu primeiro colega de fila já tinha contado que esse homem se trata há 3 anos, de um caso complicado. Há pouco tempo, estava sem nenhum cabelo. Agora que o pelo renasce, enquanto dá para fazer piada, é preciso comemorar.
***
(Não dá muito tempo pra escrever muita coisa. Sexta-feira tem uma quimio na medula, além da quimio normal, já no terceiro ciclo. Depois tem a tomografia pra ver os resultados. Papai deve começar a tomar anti-depressivos pra segurar a barra, e enquanto isso a gente passa o dia tentando trabalhar junto com ele pra dar mais ânimo e ver se um dia ele também começa a fazer piada.)