Em dia com a fome

           [Olha que não há mais metafísica no mundo
           senão chocolates.
]


sexta-feira

A valsa do pé-quebrado

Eu sou sonetos completos, e versos de pé-quebrado
Eu sou o vaso partido que ainda pode ser colado
Eu sou o monte de barro que espera por mãos de oleiro
Eu sou a massa do pão num forno ainda apagado
Eu sou o forno do pão com a fornada mais perfeita
Eu sou o pão que desceu, viveu e pediu perdão
Eu sou a encarnação do céu num corpo mortal
Eu sou a filha de Deus que aprendeu a ser rebelde
Eu sou o filho rebelde que assim se viu perdoado
Eu sou poemas do filho que volta ao pai vergonhado
Eu sou sonetos completos e versos de pé-quebrado.

Eu sou sonatas inteiras, e valsas aceleradas
Eu sou vestidos rodados e rosas oferecidas
Eu sou abraços furtados e ofertas de casamento
Eu sou amassos furtivos e esperas interminadas
Eu sou promessas de gozo e crenças no coração
Eu sou carinhos da mão fiel que dá calma ao peito
Eu sou carência no chão que rui à vista do medo
Eu sou carícias de não sopradas ao pé do ouvido
Eu sou a falta do sol no som da noite calada
Eu sou a fonte do som na música repetida
Eu sou sonatas inteiras, e valsas aceleradas.

Eu sou o som persistente nos versos enlouquecidos
Eu sou o verso perene dos mais antigos poetas
Eu sou o verso dos outros que são iguais aos meus versos
Eu sou a valsa que toca ao fundo do dia-a-dia
Eu sou essa melodia que quem vive já conhece
Eu sou o som que só cresce, ainda que diminua
Eu sou a lua minguante que vai voltar a ser cheia
Eu sou o som da sereia de um soneto enraivecido
Eu sou a falsa sonata de um falso compositor
Eu sou o verso que falta no poema que procuro
Eu sou a pena que dita a frase que tento compor.

Eu sou sonatas e valsas, eu sou sonetos e versos,
Eu sou o som que disperso em tons de fora da escala
Eu sou o que desconheço em fala, em voz e palavra
Eu sou o que não se mostra explícito em melodia
Eu sou as notas de fora do sistema temperado
Eu sou o ritmo oculto de um verso acelerado
Eu sou os passos insanos da dança deste salão
Eu sou o som da canção que embala a minha agonia
Eu sou a paz que se esconde entre os pedaços dispersos,
Eu sou os outros espaços, eu sou o tempo perverso,
Eu sou sonatas e valsas, eu sou sonetos e versos.

quinta-feira

Enfim, conversa fiada

Tou meio cheia das coisas.
Por isso escrevo estas frases, em redondilha maior, tentando entender o rumo que estes dias tão tomando.
"Em breve começo as aulas, em breve a rotina velha vai voltar a funcionar, mas vai rodar como nova. Em breve terei um livro, se me dedicar a ele. Em breve terei alunos e um saber a transmitir. Em breve, se Deus quiser, como dizem as avós — em breve terei dinheiro, e um pouco de autonomia."
"Já tenho dentro de mim mais força que imaginava. Já vejo que, ao meu redor, tem zonas de segurança. Já sinto que vem de cima algo mais que um mero alívio. Já creio que, do meu lado, está quem me dá coragem. Já penso que é necessário olhar pra frente e andar, porque os passos do futuro se constróem com ousadia."
O resultado é tão claro: em redondilha maior é que as idéias se comportam.
Pra isso, vou só fingir: vou dar um sorriso daqueles, seguir cercando as idéias, deixar rolar os projetos, e, dentro, só suspirar quando enfim eu me lembrar que eu tou é cheia das coisas.
Em redondilha maior, por dentro, eu sou só ternura.
(Eu sou sonetos completos, e versos de pé-quebrado.)

domingo

Upgrêide II

Colorido. Gostou? É uma mudancinha.
Quero mudar de uma vez este templêite.

Em conta-gotas

>> Finalmente está online. Vejam só que barato o jornalzinho do ALFA. Foi tão bacana fazer, e ainda teve o Cadu para deixar assim bonitinho. (Você vai precisar do Acrobat, é claro.) Em março deve sair o segundo.


>> Achei mais gente antiga no orkut. Coisa meio estranha. Algumas pessoas parece que era mesmo para ficarem enterradas, e esse sáite insiste em trazer à tona esses pedacinhos do passado. Geralmente é bom, muito bom. (E por que tanta gente faz aniversário em fevereiro? Tem a ver com a astrologia, com as marés, com o acaso, ou com alguma irresistível onda de amor que ataca em junho, com a chegada do frio? "Quero que você me aqueça neste inverno", e que o contraceptivo vá pro inferno?)

Outras pessoas, por mais que eu insista em procurá-las, não aparecem. Tem amigos que deveriam voltar depois de alguns anos, para ajudar a gente a fazer o balanço do tempo que passou, e para a gente fazer o mesmo e ver que guarda ao menos alguma sabedoria escondida entre os caquinhos de vivência acumulada. "Friend finder", espaço de surpresas e decepções. Devia existir um assim para encontros reais, não só virtuais.

Mesmo porque tem a outra metade da gente que eu quero reencontrar, que não tem nenhuma pista do que vem a ser "orkut" — essa palavra esquisita.


>> Apenas dois dias depois de começar ler o que disse um velhinho fascinante dos EEUU chamado Joseph Campbell (o link é em inglês), numa conversa publicada com o título de O Poder do Mito, passei a valorizar algumas ações corriqueiras como rituais que conferem sentido à experiência de estarmos vivos. Um dia eu escrevo sobre isso.


>> Ao mesmo tempo, tenho ficado fascinada pelos enredos pueris e emotivos das séries do Warner Channel. Morte à tevê a cabo e suas técnicas traiçoeiras de sedução. Apatia leva à televisão, que leva à apatia, que leva à televisão.
(Mas, apesar de não admitir, eu também torço para o Seth ficar com a Summer.)
(E sobre isso eu não vou escrever.)


>> Quero fazer pequenas loucuras. Não, ainda não vou falar delas. Ainda não escolhi quais delas merecem atenção. Um dia eu escrevo sobre isso.


>> Estou feliz. Um dia eu escrevo sobre isso.

sexta-feira

Por que eu não escrevo mais?
Em um momento, o desânimo foi tão fundo que não valia mais expressá-lo. Em outros, a tranqüilidade era tão onipresente, quase felicidade, que não era necessário escrever. Agora, quando me sinto feliz de verdade, e também estou apenas triste, preciso voltar a falar.
Quando menos eu penso no que escrevo aqui, menos o blogue parece ser lido. É bom escrever na espontaneidade pura. É bom me ler depois. Me reconhecer em alguma coisa. Sinto falta da minha imagem no espelho angustiado de um texto de baixa qualidade. Textos meus são só montes de besteiras para quem os possa ler. Mas, em mim, eles são bonitos e me trazem memórias.
É incrível como fico triste facilmente. Hoje estou mais feliz que nunca. Ontem e hoje me senti recebendo uma atenção do sobrenatural que eu nunca mereci. Me senti amparada durante a vida inteira. Me senti confiante e grata. E nada disso impede a tristeza de se abrigar. Não é um problema. Desde que, como consegui outras vezes, eu consiga entender e aprender dentro da tristeza. Não dessa forma racional que pode parecer. Que eu consiga apenas dar passos em frente, com os olhos vendados pelos sentimentos tristes, mas que eu faça esses passos que só podem ser dados quando se está cego, que só têm sentido ao se olhar para trás e se lembrar da fé pura que os moveu, da confiança na intuição íntima, na sensibilidade incontestada que mora em um lugar que só eu sei identificar. Quero avançar. Ainda há espaço para caminhar. A cada noite que se dorme há mais um pouco para caminhar. E alguns trechos são obras-primas. Os outros... são os tripés onde essas obras se apóiam.

Chorando, e incompreensível, e esperando passar.

quinta-feira

Como ser fofo com uma guitarrinha rebelde

Pra você que eu amo,
[pra vocês que eu amo],
uma canção underground
de veludo.


I'll be your mirror
Reflect what you are, in case you don't know
I'll be the wind, the rain and the sunset
The light on your door to show that you're home

When you think the night has seen your mind
That inside you're twisted and unkind
Let me stand to show that you are blind
Please put down your hands
'Cause I see you

I find it hard to believe you don't know
The beauty you are
But if you don't let me be your eyes
A hand to your darkness, so you won't be afraid

When you think the night has seen your mind
That inside you're twisted and unkind
Let me stand to show that you are blind
Please put down your hands
'Cause I see you

I'll be your mirror

quarta-feira

Humpf

Verdão, eô.

terça-feira

A fila anda.

O Hospital das Clínicas é self-service. Hoje cheguei lá às 10h20, horário em que os acompanhantes já pegaram as macas na sala das macas e já carregam seus familiares pelos corredores e elevadores, subindo ou descendo o Prédio dos Ambulatórios pela terceira ou quarta vez, da sala de exames para a injeção, da injeção para a fila, da fila para o médico, do médico para o guichê da próxima consulta, do guichê para a farmácia.

Já chegaram também os outros pacientes, ou seus acompanhantes, para a fila da consulta da hematologia. Cada um carrega uma espécie de prontuário improvisado, com as cópias dos exames, o cartão da quimioterapia, as próprias etiquetas para identificar os repetitivos hemogramas. Fazem os exames, pegam os resultados (subiu a taxa de glóbulos brancos? Que bom, não precisa da injeção de Granulokine. Hum, mas desta vez as hemáceas diminuiram, é bom receitar ferro...) e entram na fila para retirar a senha e esperar pela consulta das 14h. Que vai acabar acontecendo às 16h.

Estou nessa turma. Quem faz isso da primeira vez fica perdido com as idas e vindas no elevador, e leva algum tempo para saber qual é agora o próximo passo no self-service do HC. "Oi, você me ajuda? Já fiz o exame, agora é nesta fila que eu pego o resultado?" Não, mocinha, o resultado sai no Hospital-Dia, no 1º andar. Não, mocinha, você não está no 1º andar; aqui é o 5º. Ah, é que o térreo na verdade é o 4º andar. O 1º fica no subsolo, pega o elevador. Entendeu? A mocinha vinha trazer a mãe para a segunda consulta da hemato. É novata. Eu já entrei no esquema: além de não me perder, já estou dando informações.

Depois de algumas semanas, você vê que a quimioterapia no HC é uma grande comunidade. Você passa a reconhecer os rostos, lembrar dos casos, acompanhar os tratamentos — que nunca são iguais. Quando cheguei perguntando quem era o último da fila, recebi a resposta de um rosto familiar: um senhor tranqüilo e digno que estava por lá também nos outros dias. Ele tem um semblante sério que parece, no entanto, que vai começar a sorrir a qualquer momento. Anda devagar, como se os passos fossem uma afirmação de autonomia, um esforço para suportar com dignidade e calma o fato de estar pálido e careca.

O papo nas filas do HC é fácil. Então o senhor me contou que não parou de trabalhar durante todo o tratamento. Só diminuiu o ritmo das visitas aos clientes. Ele é vendedor. Está quase no fim das sessões de quimio: já fez sete ciclos, vai fazer o último em breve. A última tomografia já tinha mostrado que os linfomas desapareceram.

"Ah, o caso do meu pai é linfoma também."

"Não-Hodkgin?"

"É."

"Igual o meu. Como ele descobriu?"

Puxando papo com mais pacientes, com os funcionários, com as médicas, descobri que nas manhãs de terça-feira só são atendidos os pacientes com Linfoma Não-Hodgkin. LNH, na sigla da carteirinha de quimioterápico, como uma senhora fez questão de me mostrar enquanto reclamava da demora. Eu, depois de um tempo, não reclamo mais da demora no HC. Basta ter a disposição de passar o dia inteiro lá, esquecer qualquer intenção de fazer outra coisa durante o dia, lembrar que aquele é o melhor tratamento que se pode receber em São Paulo (começo a achar que é até melhor que o de um plano de saúde) e se distrair com o que estiver à mão. E aprender. Essas conversas com os colegas da quimio, por exemplo, me ensinam muito. Ouvi de muita gente que o linfoma se alastra rápido, mas também tem uma cura mais fácil que os tumores convencionais. Cada paciente se torna especialista no assunto ao falar da própria doença.

E, depois, reconheci mais uns três ou quatro rostos na fila da consulta. Vi o primeiro rapaz com quem conversei, cuja mulher também tinha linfoma, tinha ficado deprimida quando perdeu todo o cabelo, mas já estava chegando no final do tratamento; e a senhora que me contou ter reagido tão bem à quimioterapia que não sentiu dor nem náuseas e até ganhou peso — ela me passou a receita da sopa de fubá com carne que ela costumava fazer quando não tinha muito apetite. "Ah, a gente tem que ficar forte, mesmo quando não quer comer." Pois é. Também vi uma mulher que usa lenços bonitos na cabeça e tem um rosto de feições fortes, determinadas, e serenas. Com ela, ainda não conversei.

(Os outdoors anunciam o shampu da Dove que trata bem a todas as mulheres, mas beleza mesmo está nas mulheres carecas da quimioterapia. A força que emana da sua vaidade, dos rostos cuidados e maquiados e dos lenços compridos, que chegam à cintura, como cabeleiras coloridas de desenhos e flores, me comove mais que tudo naquele hospital.)

Ao meio-dia chegam os últimos da fila, terminando de encher as cadeiras que forram as duas paredes do corredor. Pouco depois, o guichê começa a distribuir as senhas. A fila tem que andar, a espera agora é em pé. Mexer o corpo anima quem já começava a pegar no sono, começam algumas conversas animadas. A maioria versa sobre os diagnósticos, os tratamentos, as expectativas de quem se trata. Trocando opiniões e informações, explicando o próprio caso mais uma vez, todo mundo tem um pouco de médico e louco.

Assim, enquanto todo mundo na fila é médico, uma mulher louca dá um grito de repente e chama a atenção, dizendo devagar e ritmando as sílabas, "você tá falando comigo? Tá fa-lan-do co-mi-go? Você qué vê como eu a-rre-ben-to a sua cara?". E caminha lentamente para o começo do corredor, arrastando o salto-alto velho e a roupa mal-combinada, de queixo erguido e olhar perdido. Murmura, sem pudor: "Arrombada..." e deixa atrás de si um burburinho em torno da mulher atacada. E essa aí fica tentando explicar para quem está ao redor que ela só estava conversando normalmente com a moça.

A fila anda. Cada paciente sai da sala do guichê com seu papelzinho e o número da senha, e volta a ocupar as cadeiras, agora sem muita ordem. Da outra vez em que vim para a consulta meu papelzinho anunciava "Espera estimada: 2h30". Hoje, ele diz "Espera estimada: *". Deve ser um mau sinal.

Enquanto se espera, portanto, tem de se achar meio de passar o tempo. Lê-se qualquer jornal, quem gosta lê um livro, quem sabe faz crochê, quem tem vontade conversa. Uma "Banca Móvel" passa de vez em quando no corredor para vender as indefectíveis palavras-cruzadas e mais uma variedade de revistas. A mocinha anuncia: "revista de receita, receita de coxinha, coxinha assada, coxinha de calabreza, aprenda a fazer coxinha, faça coxinha pra vender na praia..." A gente então imagina os pacientes de quimioterapia tapando todo o corpo, cobrindo a careca, magros e débeis, tentando andar na areia e elevar a voz fraca para anunciar as coxinhas que aprenderam a fazer no hospital na fila da consulta da hemato. A gente chega à conclusão de que a mocinha estava fazendo piada, mas ela continua empurrando o carrinho devagar, séria e persistente, sem sinal de brincadeira. Atrás do carrinho, a revista Tititi dava a manchete da novela: "Reginaldo tem morte trágica". Ninguém comprou revista nenhuma.

No meio das conversas discretas, alguém comenta sobre os dois irmãos do Lula que morreram no mesmo mês. E o presidente vira o assunto daquela turminha. "Ele é um sem-vergonha, um filho da puta. Quando você vê o Lula falar em saúde? Nunca vi."

A maioria concorda, mas tem um corajoso na fileira da frente. "Pior que ele é o Fernando Henrique!"

Começou a discussão de política. O moço que tem raiva do Lula lembra de números, informações, fatos "que o repórter falou na tevê", argumentos sem-fim contra o presidente. Mas a maioria só está a fim de piada. Quando alguém comenta o gasto do governo, um outro não perdoa: "Fora o que ele gasta na cachaça!".

"Cachaça nada, agora ele toma é uísque."

"É, uísque com farinha..."

Para agüentar a quimio, é preciso ter bom humor. Tem um senhor que é piadista incontrolável. "Sabe que na semana passada eu comprei um secador, e o motor dele já queimou! Não aguentou, de tanto cabelo..." Debaixo da boina, uns fiozinhos grisalhos, curtinhos, começam a nascer. Meu primeiro colega de fila já tinha contado que esse homem se trata há 3 anos, de um caso complicado. Há pouco tempo, estava sem nenhum cabelo. Agora que o pelo renasce, enquanto dá para fazer piada, é preciso comemorar.

***


(Não dá muito tempo pra escrever muita coisa. Sexta-feira tem uma quimio na medula, além da quimio normal, já no terceiro ciclo. Depois tem a tomografia pra ver os resultados. Papai deve começar a tomar anti-depressivos pra segurar a barra, e enquanto isso a gente passa o dia tentando trabalhar junto com ele pra dar mais ânimo e ver se um dia ele também começa a fazer piada.)