Em dia com a fome

           [Olha que não há mais metafísica no mundo
           senão chocolates.
]


quinta-feira

What the hell

Esse troço de colocar uma palavra atrás da outra
nem sempre funciona.

terça-feira

Depois,
deu vontade de cantar.
E cantamos, os dois juntos,
rindo com Raul Seixas que dizia "Tente outra vez..."
— uma euforia serena,
singing in the rain, enquanto a água caía.
(A água purificava
e eu contei que ela falava de transparência e de vida.)

Para ser perfeito,
não houve nada além de nós mesmos.
Em volta estava o tempo,
o nosso tempo,
e a ternura.
(Lembrei de Djavan cantando "Aqui ou noutro lugar / que pode ser feio ou bonito / se nós estivermos juntos / haverá um céu azul.")

Que importou a dor e o cansaço,
o suor e as lágrimas
— que só deram mais gosto ao abraço?
Quando eu olho, vejo a cumplicidade construída a cada dia
e sorrio diante do choro e da dor
(como eu sabia que faria).

Sorrio, principalmente, diante do abraço,
meu grande tesouro.

Depois deu vontade de viver, de crescer,
e o abraço foi eterno,
o repouso foi sereno,
e o futuro foi tranqüilo.
"Minha paz vos dou."

A grande dádiva
é a possibilidade de construir,
perdoar,
crescer,
lembrar,
de decidir por se apaixonar.

A grande dádiva é dividir
a entranha
do cotidiano.

Mudando de assunto

Hoje, já.
É, cansei.
E nem fazer haikai eu sei.

(Mas sabe que o digo
sorrindo?)

sexta-feira

Voluntários Planetários

Copiado de Julia Garcez, só porque deu arrepio de gostoso
quando eu li.


:: Certas reminiscências têm pouca utilidade prática, mas nem por isso deixam de ser divertidas. Mexendo em uns papéis, eis que encontro o bloquinho que usei para trabalhar no FME, o evento que mudou a vida. Está tudo lá: relatoria de reuniões, estrutura de trabalho, cobertura de eventos, TU-Do mesmo. Algumas anotações eu datei, outras não. Foi super bacana descobrir que eu e as incríveis companheiras Aline e Diana nos conhecemos dia 26 de março de 2004. A Vivi e a Maria - outras companheiraças! - conheci um pouco antes, a Carol encontrei já no Anhembi, mas não anotei os dias. Naquele final de março, apenas conhecidos. Neste começo de janeiro, parceiros de pautas, de cursos, de baladas, de happy hours, de cafés, de viagens e de conversas sem fim, confidentes, conselheiros, caronas, gurus, (futuras) madrinhas de casamento, amigos de vida inteira (espeeeero!). Vocês são TUDO gente. E eu sei que faltam alguns nomes essenciais, mas restringi as citações aos planetários (prováveis) leitores do blog. Chico, Rogério, Elias, Lucia e Lina ainda hão de dar as caras por aqui!


Escrito por Julinha às 23h45

quarta-feira

Dossiê fim-de-semana

Voltei do Guarujá. Choveu. E foi bacana.
(Adoro quando o blogue vira um diário de adolescente.)


Li um tal de Dossiê Moscou, meia-boca-interessante, do repórter Geneton Moraes Neto. Uma frase genial e uma lírica citação.

A frase está no último capítulo — depois de toda a compilação de entrevistas, descrições e reflexões do repórter em torno da primeira eleição na Rússia pós-soviética, em 1996, quando Boris Yeltsin conseguiu o segundo mandato (o primeiro havia começado ainda quando a URSS existia) e Gorbatchev, o homem da abertura, conseguiu meio por cento dos votos russos. Fim da apuração.

"Já é madrugada em Moscou. Procura-se uma birosca que ofereça aos forasteiros nem que seja um sanduíche requentado. Nossa troupe faz a ronda. Um bar de estilo americano recebe os notívagos. De pé, oh vítimas da fome: um hambúrger nos espera."

Nas primeiras páginas do livro, o jornalista havia lembrado dos slogans pixados nos muros de Paris em maio de 68. Este aqui, entre eles: "Como é possível pensar livremente à sombra de uma capela?".

E eu continuo devendo textos sobre a Rússia. Era para eles nascerem nestas férias. Pouco provável.

E assim Moscou entrou para a galeria das nostalgias da jovem repórter Diana Pellegrini.

sábado

Eu também quero Férias no Alvorada.
(Uma discussão besta que só.)

sexta-feira

E amanhã vou fazer uma reportagem sobre doces ambulantes.

Diz o coração covarde

Queria ter aprendido sobre motores e computadores,
ter tocado violão
(tocado muito violão),
ter dado boas aulas de francês,
ter feito e lido poesia,
ter cantado em côros a capela,
ter ouvido músicas sacras russas a capela.
Ter dado um beijo enquanto ouvia o pianista italiano.

Queria ter aceitado e ter tido coragem.

— Não, não queria.

Desculpem ser hermética,
é que nem eu tenho coragem de me entender.

AmOr kut

five things i can't live without:

Companhia (e crescimento).
Viagem (e aprendizado).
Música (e o transcendente).
Chocolate (e o prazer).
Livros e uma brisa e uma rede. Ou um travesseiro.

sábado

Avant-Dernières Pensées

Gosto da música de Érik Satie.

Nas Gnossiennes e nas Gymnopédies, ele compõe em ciclos. São as minhas preferidas. Mesmo as surpresas da melodia, as frases inusitadas, as mudanças de dinâmica inesperadas, só são surpresas quando são entendidas dentro das cíclicas repetições.

Gosto da música do Satie porque ele não se leva a sério. Ele tem comentários de interpretação esdrúxulos, sem sentido. Alguns intérpretes tentam concretizá-los, mas outros acham que ele só estava tirando sarro de quem fosse tocar sua música. E essa talvez seja a chave para ouvi-lo: não levar a sério o tom dramático, melancólico; não levar a intenção a sério, mas levar a sério só o resultado.

Assim, gosto do Satie porque ele diz o que você quiser ouvir. Como se cada peça fosse feita apenas de indicações de estilo e tom para um texto em que você pudesse falar sobre o que quisesse.

E, acima de tudo, gosto da música do Satie porque ele não dá respostas. As músicas acabam no final de um dos ciclos, sem informações novas que superem a contradição que ele apresentou durante toda a peça. No máximo, quando algo novo acontece no final, parece que é só para enfatizar o problema, dramatizá-lo. Nunca resolvê-lo.

Meus penúltimos pensamentos enquanto o ano acaba: definitivamente, inspirar e exalar é para enquanto podemos.

Ciclos. Feliz ano novo.