Em dia com a fome

           [Olha que não há mais metafísica no mundo
           senão chocolates.
]


quarta-feira

Entre aspas

"Mas eu continuava querendo acreditar naquilo em que acreditam todos os apaixonados: que a coisa em si é melhor do que qualquer alternativa, mesmo quando não correspondida, derrotada, louca. Eu queria apegar-me à imagem do amor como uma fusão de almas, uma mistura, como o triunfo do impuro, do vira-lata, juntando o melhor de nós de modo a sufocar o que tínhamos de solidão, isolamento, austeridade, dogmatismo, pureza; o amor como democracia, como a vitória do Plural, do homem-algum-é-uma-ilha, do dois-é-bom, e a derrota do Uno, do apartheid, do limpinho, do mesquinho. Tentei ver a falta de amor como arrogância, pois quem, senão aquele que não ama, pode considerar-se completo, um ser que tudo vê e tudo sabe? Amar é perder a onipotência e a onisciência. Apaixonar-se é mergulhar na ignorância; sim, é uma espécie de queda. Fechando os olhos, saltamos de um rochedo na esperança de cair em algo macio. Nem sempre é macio; mas ainda assim, eu repetia a mim mesmo, ainda assim, sem esse salto ninguém vive de verdade."

"Tendo abraçado o inevitável, perdi o medo. Vou lhes contar um segredo sobre o medo: ele é um absolutista. Com o medo, é tudo ou nada. Ou bem, como um tirano arrogante, ele manda na nossa vida com uma onipotência estúpida, que nos torna cegos, ou bem a gente o derruba, e seu poder se esvanece em fumaça. Mais um segredo: a revolução contra o medo, a trama que leva à derrubada daquele déspota ridículo, não tem muito a ver com a tal da 'coragem'. O que a impele é uma coisa muito mais direta: a necessidade pura e simples de tocar a vida para a frente."

domingo

"Um suspiro não é apenas um suspiro. Inalamos o mundo e exalamos significados. Enquanto podemos. Enquanto podemos."

Tudo isso no Último Suspiro do Mouro. Salman Rushdie.

segunda-feira

Tenha Pena de Mim.

domingo

Quero ver de novo o verde e o verde das vinhas do Alentejo, e roubar figos brancos pingando de doces à beira das estradinhas vazias.
E o céu, o céu, o brilho e o calor; as ruas sem calçadas para brincar de esconde-esconde e fazer coisas escondida.
Quero de novo construir lembranças de infância.

Existenciais

Ainda bem que eu conheci o Sartre.
Porque eu sempre fui meio existencialista de algum jeito, desde que me lembro como gente. Mesmo que até hoje não saiba definir com precisão o que é isso.
Pelo menos em um aspecto: no sentido de que sempre soube que os significados que se dá à vida só persistem em função de trajetórias específicas, sob visões específicas, dentro de valores e culturas. Mas também em outros aspectos.
Que, enfim, nunca eu vi os tais dos valores universais-absolutos.
Talvez por isso eu sempre tenha perguntado por eles.
Por isso sempre tenha querido ouvir sobre os absolutos de todo mundo.
Por isso tenha adotado meus próprios valores universais.
Que ainda vigoram, mas que é fácil relativizar em face das certezas estreitas dos outros ou de suas sabedorias anchas.

Sempre imagino o presbítero dizendo "Mas irmã, você está se deixando levar por vãs filosofias".

Vi o novo muito nova, e entendi que a maior frase da vida é "Ora bolas" — depois de um "Uaaau!", e seguida de muitos "Eu te amo".

terça-feira


Parabéns a você: meu coração de presente.

sábado

Quatro coisas que eu queria publicar, número 4

Notinha escondida num canto de página da Folha de S. Paulo, dia 22 de novembro, seção "Panorâmica" do caderno Mundo.
A mesma Folha, se não me engano, foi quem publicou alguns dias antes um artigo grande, traduzido de um colunista estadunidense, em que a iniciativa dos origamis era ridicularizada. Mas, como eu sou besta, ainda digo "viva o simbolismo".
(E é por isso que não mereço entrar no curso de Relações Internacionais.)

TAILÂNDIA
Pela paz, população deve fazer origami, diz premiê

O premiê da Tailândia, Thaksin Shinawatra, lançou uma campanha na qual os 63 milhões de tailandeses são incentivados a fazer passarinhos de papel para interromper a onda de violência no sul do país, que já deixou mais de 500 mortos nas últimas semanas. Cerca de 10 mil soldados no sul e centenas de milhares de voluntários do ministério da Saúde estão ocupados fazendo origami. Na capital, Bangcoc, sinais eletrônicos incentivam a população a fazer os passarinhos, que serão bombardeados no sul do país, onde ocorre um levante de muçulmanos contra o governo de maioria budista.


* Fazer pássaros de origami é uma habilidade incluída no código genético dos tailandeses, ou os voluntários passam por um treinamento de emergência antes de porem as mãos à obra?
(Dá para imaginar grandes auditórios, com um soldado em cada, gritando sorridente a centenas de tailandeses atentos: "isso, agora essa parte triangular vocês dobram para cima, aaaaaassim. Todo mundo já fez?")

quarta-feira

(E o que eu quero lhe dizer é só isto aqui)

(Enquanto você toma injeções de Buscopan para resistir à dor e poder ler jornal)

(Ando devagar porque já tive pressa
E levo este sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
Eu só levo a certeza de que muito pouco eu sei
Eu nada sei
Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs
É preciso o amor pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso chuva para florir
Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando os dias pela longa estrada eu sou,
Estrada eu vou
Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs
É preciso o amor pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso chuva para florir
Todo mundo ama um dia todo mundo chora
Um dia a gente chega, no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
E cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz
Conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs
É preciso o amor pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso chuva para florir
Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Cada um de nós compõe a sua história
E cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz.)


  Anjo.