Em dia com a fome

           [Olha que não há mais metafísica no mundo
           senão chocolates.
]


domingo

Grupinho



Isso aqui, pra quem não conhece, é um momento bom, bom, bom do final de 2001. Marataíses, Betinha, o braço do Luís Philipe tocando violão e querendo entrar no Big Brother, uma fatia do rosto do Júlio, um amigo desconhecido do Lu, Nilsinho japonêis e Alvarinho em plena campanha petista. Lendo a Bíblia no parque Villa-Lobos: a foto poderia servir para campanhas cafonas de evangelização juvenil, mas é apenas a imagem de um momento bom.

Aguardem, que tamos voltando. Só que, desta vez, com menos, menos.

Dia 4 de setembro, sábado. Lá pras 15h, na minha casa.
Vai ser um prazer.

sábado

Me dá, me dá, me dá:

Eu quero um emprego de repórter, que passe longe de assessoria de imprensa.
Eu quero um emprego em que eu escreva sobre coisas relevantes.
Eu quero um salário maior que R$ 500.
Eu quero emagrecer sete quilos.
Eu quero melhorar meu fôlego e conseguir correr mais de 3 quilômetros por dia.
Eu quero melhorar minha disposição e acordar cedo e passar o dia sem sono.
Eu quero melhorar minha disciplina e estudar as matérias da faculdade, ler mais livros e assistir aos filmes que todo mundo já viu menos eu.
Eu quero ir ao cinema e ver uns quinze filmes que me deixam com água na boca.
Eu quero conseguir fazer uns três frilas que tenho na idéia.
Eu quero entrevistar o Herméto Pascoal.
Eu quero viajar, viajar, viajar.
Eu quero dançar forró.
Eu quero mais tempo para namorar.
Eu quero tocar piano de novo.
Eu quero um convite pra voltar ao Orkut.

Com carinho



Este pôste tem objetivos políticos. Difamar a rainha da Betalândia, é claro. E, se ela ainda não queria divulgar o endereço, problema dela. Te vira, alteza. E cê tá vendo que eu tou puxando o seu saco, né?

sexta-feira

É Hora do Povo

"Não há terror maior que exclusão social e ausência de futuro". É a manchete da edição de hoje do "Hora do Povo", jornal PMDBista, populista e getulista que chama minha atenção desde o primeiro ano de jornalismo. Abaixo da manchete de letras grossas e grandes, sublinhadas por um grosso traço azul, e ao lado do título branco em fundo vermelho, há um grande círculo amarelo que anuncia o preço, bem visível: 50 centavos. Sob o preço, a explicação: "Nas bancas toda quarta e sexta-feira". Quando eu costumava comprar as duas edições semanais (um grupinho de colegas se revezava nas bancas, para garantir a coleção completa), o jornal saía às terças e sextas.

O número que comprei hoje parece mais comedido, mas já peguei qualificações como "porco capitalista" para o George W. Bush, e verbos da ordem de "achincalhar" para alguma ação qualquer do governo FHC que o jornal queria criticar. "Achincalhar" virou palavra de ordem multi-uso na minha turma da faculdade. Hoje, o jornal lança um caderno especial sobre o grandioso sucesso da Petrobrás, orgulho dos brasileiros, e apóia a candidatura da Luiza Erundina, aliada de mestre Quércia.

Fora os textos inflamados, os adjetivos exaltados e as visões ufanistas do Brasil e do governo petista, o mais lindo da edição de hoje — fora, principalmente, a sublime manchete — foi a seção de cartas. Leia aí a transcrição fiel, conservando o padrão de texto, os negritos e itálicos, os pontos e as vírgulas, as maiúsculas e minúsculas e os erros de linguagem:

Manchete do HP
Caro editor: surgiu-me uma dúvida de português ao ler a manchete do Hora do Povo que diz: "O que os EUA está esperando para sair do Iraque?". O verbo não teria que concordar com o substantivo, ou será que por haver elipse do artigo definido 'os', o verbo 'estar' fica no singular? Muito obrigado.
Agenor Dias Ferreira — por correio eletrônico
Nota da Redação: Na verdade a nossa manchete foi "O que EUA está esperando para sair do Iraque?", portanto, sem o "os". Se houvesse o "os", ou mesmo se houvesse elipse dele, o verbo teria que estar no plural. Mas está no singular devido a concordar com a palavra "país". Esta, sim, leitor, está em elipse. Certamente seria mais comum e natural a concordância no plural, ainda que o singular esteja também correto, da mesma forma que também seria mais natural colocar o artigo "os". O problema é que não "paragonava", isto é, as linhas ficavam com tamanhos diferentes uma das outras. O leitor não sabe o que é o suplício que enfrentamos toda edição para alinhar uma manchete. É fogo!
Bonitinho demais, a sinceridade e o desabafo do editor (ou de quem fala em seu nome).

E a manchete continua ressoando, pomposa. Corajosa, também, mesmo que ninguém leve o jornal a sério. Nem eu bem o respeito. O "Hora do Povo" é uma voz ridicularizada, e não sem razão.
Oquêi. Mas comentei sobre a frase da manchete hoje à noite com o Cadu, e lembrei da aula sobre o Quixote: o personagem louco, tolo, ou o personagem cego, pode se revelar o depositário da maior sabedoria. No reino, é o bobo-da-côrte quem tem autorização e isenção para falar o que quiser.

Assim, ó: "Não há terror maior que exclusão social e ausência de futuro". Não mesmo.


(Existe o endereço www.horadopovo.com.br, mas agora parece fora do ar. Vale a pena tentar depois.)

Querido diário

Hoje foi legalzinho assim:
Comecei o dia sonhando com o Cadu,
Li Dom Quixote no ônibus,
Acompanhei direitinho a aula de Cultura Brasileira,
Almocei croissant de pizza,
Li mais Dom Quixote,
Tomei um sorvete Magnum Special de R$ 3,30,
Curti a preguiça nas poltronas deliciosas do Itaú Cultural,
Li Dom Quixote mais um pouco,
Visitei a Escola de Informática e Cidadania da Avenida Brigadeiro,
Conversei com a Priscila, professora da escola, em um papo bom,
Vi inclusão digital e me entusiasmei mais um pouco;
Desmarquei um compromisso chato,
Passei pela banca de jornal, li a manchete da Hora do Povo e comprei o jornal,
("Não há terror maior que exclusão social e ausência de futuro", diz a manchete, magistral, corajosa e ridícula)
Comprei uma camiseta que diz "Todo mundo deveria ter um pandeiro",
Conversei pouquinho com a Lu, que não via direito há uns dois dias,
Assisti à ótima aula sobre Dom Quixote, ouvindo de loucura, tolice e sabedoria,
Escapei do trânsito ao voltar pra casa,
Comi lasanha vegetariana e bolo de chocolate,
E terminei o dia com o Cadu ao telefone.
E boa noite.


(Afinal, para isso se inventaram os weblogs.)

Universo heliocêntrico



Uma montanha. Quando era criança eu desenhava duas montanhas na folha sulfite; pintava uma de verde-claro e fazia a outra mais escura, e depois fazia o sol, amarelão, nascendo atrás do vale. O homem na foto, agora, é uma montanha, com o pico alto e redondinho. A montanha verde-clara: a que ficava à esquerda do papel, e que tinha tufos de grama mais escura. (Na montanha verde-escura, oras, é claro: a grama era verde-clara.)

O rosto do homem é o sol: a pele albina, fluorescente, brilha em cima da montanha. Tem o rosto bochechudo, tem uma cara engraçada de velhinho e usa óculos redondos. E eu que não sabia que o sol usava óculos — deve ser porque vê as coisas claras demais. Ele sempre vê claro demais.

Os raios em torno do rosto são fiapos de algodão-doce branco, que eu posso fazer, no meu desenho, desfiando pedacinhos de algodão de farmácia. Saem debaixo do nariz do sol, fazendo nele um bigode e uma barba. E vão subindo pelos dois lados, circundando suas bochechas e sua testa. São fiapos de neve: devem ser os raios que o sol manda quando quer que faça frio. Brrrrr. Ele, então, para derreter o gelo dos raios brancos, fecha os olhinhos redondos e dá uma risada. Quando ele tem os olhos fechados, quase nem dá para reparar que as lentes dos óculos do sol são muito, muito grossas. O sol é estrábico.

O sol sorridente vai pular fora do meu desenho de infância, me dar um abração de avô e me consolar: você ainda vai ser pianista. “A vontade não pode ser forçada”, dirá a cara redonda do sol. “O segredo é você deixar fluir a sua intuição. Tem que ser mais intuitivo do que tudo. Quando vem a intuição legal, deixa fluir.” (*)

— Tá bom, seu sol. Eu vou tentar. Agora volte aí pra trás da montanha, que pega mal ficar aparecendo assim sem avisar, ainda mais para falar das minhas frustrações.

— Não, tou lhe falando a sério! — o velhinho é insistente. — “As pessoas que premeditam põem uma parede na frente da intuição, na frente da imaginação, aí ela chega e volta. Eu sou músico totalmente intuitivo. Não se pode padronizar a música. Cada um tem um jeito diferente de assimilar as coisas e uma intuição diferente para fazer as coisas.”

Já entendi. Faz Sol Lá na montanha Hermeto Pascoal, e o sol assobia uma musiquinha no tronco oco de uma árvore que arrancou da colina. Estica seis dos seus raios para tirar acordes de violão, e ainda marca o ritmo batucando três ou quatro nuvens. Já o chamaram de “poliinstrumentista”, e não foi suficiente. Aí, apelaram: “o bruxo”, “o mago”. A montanha, o músico. Inventou chamar as coisas que faz de “música universal”, e acabou criando então um Universo heliocêntrico. Sol maior.

(*) Declarações em entrevista concedida a Ronaldo Evangelista, da revista Jungle Drums.

quinta-feira

Ficção

Acordei com gosto de ressaca na boca
e uma fraca e luminosa vontade de viver.
Por isso fiquei na cama
e até as 9h30 sonhei com consolo e cafuné, filho e marido;
imaginei, com dor de cabeça,
que meu filho me contava a história da Chapeuzinho Vermelho
do jeito que eu fazia quando era criança:
"Era uma vez , a Chapeuzinho Vermelho. Aí, né, a mãe dela pegou e falou assim: 'Chapeuziiiiiiinho! Vai levar isso aqui pra sua vóóóóóóó! Aí ela pegou e foi." (As pessoas me interrompiam: "mas levar isso aqui o que, Diana?...").

De tanto que imaginei, a luminosa vontade ia crescendo conforme eu via o quanto podia amar
e se ia frustrando conforme ficava tarde e eu percebia que perdia a aula na faculdade.

Perdi o tempo.

Quer saber?
Essa contraditória impotência pessoana, bandeireana, baudelaireana — já encheu.

Minha vontade de viver, grandiosa, sempre foi opaca;
por isso fiquei na cama.
Esse spleen, no fundo, que saco:
era a ressaca de só meia lata de Brahma.

terça-feira

"Estou mais para cataplasmas que para sermões."

Do sempre sábio Sancho Pança, quando, depois de levar bordoadas, ousou contestar a sábia fé de Dom Quixote.
Minha fé e minha sabedoria: eu sou Quixote e sou Sancho.


segunda-feira

Encuquei

Eu sou piegas?

Maravilhoso mundo de Cásper Líbero

Diz que o seu Erasmo Nuzzi, diretor da Faculdade, passou hoje de sala em sala pra dar recado. É a primeira vez, em quase três anos de Cásper Líbero, que eu ouço sobre o sujeito fazer isso. O aviso: um pedido de desculpas por o prédio ainda estar em obras; fiquemos tranqüilos, nós alunos, porque a reforma vai só até amanhã.
O engraçado é que o seu Erasmo, um diretor, cuja função na Faculdade é pedagógica, se preocupou tanto em nos tranqüilizar sobre essa questão tão secundária mas, durante a crise, em que ele mesmo era pivô, não deu nenhum esclarecimento que não tenha sido extraído a fórceps.
"Desculpe o transtorno, estamos em obras para melhor atendê-lo."
Tá desculpado, diretor. A satisfação do cliente está garantida. Mas eu não sou cliente, sou aluna.

Aí eu saí da faculdade e fui comprar o livro indicado por Dom Jefferson Del Rios, crítico de arte e eventual professor de Jornalismo Cultural; bibliografia pra aula dele sobre África e Brasil, na próxima quinta-feira. Na livraria, pedi ajuda do vendedor. Não vou esquecer desse diálogo por um tempinho.
"Oi. Eu tou procurando esse livro aqui do Reginaldo Prandi, não sei se está na estante de religião, candomblé..."
"Reginaldo Prandi? Deve estar em antropologia, alguma coisa assim."
"Ah, pode ser."
"Deixa eu dar uma olhada." (mexendo no computador:) "Ah, não: esse aqui é infanto-juvenil".
Já li o livrinho. É joinha. Fofinho. Gracinha. Não agüento esperar até quinta-feira pra ver como vai ser a aula.


Escrevo rápido e mal-escrito, hoje. Desculpa a pressa, vou correr na USP pelo primeiro dia. Se daqui a cinco dias ainda estiver correndo na USP, vou me considerar uma pessoa muuuito persistente. Me desejem sorte.
(Certo, parceira ;-) ?)

domingo

Tenho saudades de um amigo.

(Como uma terra seca, sem água,
Minh'alma clama por ti
...
Auxílio és tu quando estou em prantos
Pois tuas asas me cobrirão
Vivendo ao teu lado
Pois só tu me sustentas
...
Melhor na vida é
teu amor)


Não lembro da música direito. Ele era barítono. Acho que agora não canta mais.
Ele não vai ler isto aqui.
Mas, se prece ainda funcionar, ele deve estar muito feliz.