Em dia com a fome

           [Olha que não há mais metafísica no mundo
           senão chocolates.
]


sábado

Balanço

Olha só como eu tou.
Poderia escrever mais sobre marketing e política, sobre relacionamentos e profissões, sobre viagens, Cruz Vermelha e Kofi Annan, educação e literatura. Em vez disso, cito Djavan e falo de amar.
Eu devo ser mesmo uma menina romântica. Pra começar, sou uma menina. Garotinha, mesmo, ingênua e pueril — apesar do que digam e eu diga. Pra terminar — e terminar bem —, tento sempre pular fora e me conservar longe deste mar de chocolate, coraçõezinhos de lápis de cor e pétalas de rosa, pra cada vez descobrir de novo que sou romântica e, pior, piegas. Sou piegas?

Me assumi, então.
Se é pra ser piegas e romântica, quero falar também do que é bonito. Não mais como se eu desabafasse: desta vez, como se eu me declarasse. Mas não vou me declarar.
Vou só lembrar, bem lembrados, dos momentos que eu quero guardar para sempre. Das vezes em que eu tenho orgulho dele; em que, no meu colo, ele sonha com projetos concretos de fazer bem às pessoas, planeja ter profissões sérias para poder criar filhos, ou só se preocupa com os amigos. Das vezes em que ninguém sabe consolar como ele. Das vezes em que ele também me consola, e é meu único amigo de verdade. Das vezes em que ele dá sentido ao dia.
Dos momentos sem fim em que ele olha o palco, bate com os dedos o compasso da música no meu braço, e eu posso vê-lo quietinha.
Dos dias em que a única coisa que tem mesmo valor são os nossos momentos e o nosso futuro.
Vou só lembrar desses momentos pra, depois, talvez aprender a falar deles.

Assunto encerrado.

Aliás, falar de música é exatamente o jeito que tenho de ser piegas sem precisar falar de amor. Hahá, é a intersecção entre meu romantismo e a vida.

Música universal

E, a propósito de música, fui lincando de blogue em blogue e achei um papo com Hermeto Pascoal que é uma delícia. Devem existir entrevistas melhores com ele, mas esta me deu tanta vontade de ser o jornalista...

Escreve aí: eu quero entrevistar o Herméto. Não sei se vai dar, mas eu quero.

Já escrevi.




(Citando uma desconhecida página argentina:

"Nadie puede ser llamado músico con tanta justicia como el brasileño Hermeto Pascoal. Admirado tanto por músicos de la talla de Astor Piazzolla o Miles Davis, al "albino loco" no le basta con su capacidad de tocar con excelencia los instrumentos más variados, él puede hacer música con cualquier elemento. No sólo convirtió en instrumentos a pavas, frascos o tubos, incluso ha incluido en sus discos - con asombrosa musicalidad - sonidos de cerdos o papagayos, de una variada fauna con la que asegura poder comunicarse. Su música abarca estilos como la bossa, el forró nordestino, el free jazz, el baión, la música clásica y hasta el tango, pero hay en esa amplitud un trasfondo extramusical: en su exploración de nuevos sonidos se esconde la búsqueda de la unidad elemental.

(...)

Hermeto está todo el tiempo atento a los sonidos que lo rodean: "la música está en todos los contextos, yo me inspiro más, un ochenta por ciento en lo cotidiano, en las otras cosas más que en la música en sí, ya que está dentro de mí, no me puedo preocupar por ella, porque es parte de mi alma, entonces yo nací con la música, no tengo que saber, sólo la siento".

La sabe sentir en un relato de fútbol que armoniza, en silbatos infantiles con los que interpreta a Paganini en su último show porteño o en la misma voz de su entrevistador, todos pueden ser músicos para el brasilero si saben escuchar. "Pero hay un prejuicio muy grande, como si las personas para serlo tuvieran que tocar un instrumento, ¿qué es eso?", se pregunta molesto, firme en su combate contra la idea del artista como alguien diferente de los demás: "En Brasil intentaron hacer eso conmigo, trataron de elitizar mi trabajo y jamás lo consiguieron", responde enérgico.")

sexta-feira

Aprendi a publicar fotos!

(Adoro dominar a tecnologia. Mesmo quando pareço idiota ao expressar isso. E, olha, desta vez nem precisei do Html.)



A primeira, a inaugural: além de estar um barato ("para trás, paparazzi!"), ainda foi tirada em Itajubá — lugar delicioso! — e feita pela jornalista Luciana Scuarcialupi, grande fotógrafa em potencial.

Desta vez, por favor, só vou aceitar comentários de elogio.

quinta-feira

Entre aspas
"A tortura está por um triz"

A primeira vez que ouvi a música,
achei que ela vinha do sobrenatural.
Me encantei, senti um arrepio, fechei os olhos, disse "mas é linda!"; e deixei ela de lado, esperando significação.

Quando ouvi a música de novo
estava no momento de achar tudo romântico.
A música já era minha, já era de dentro, mas eu ainda não entendia.
Da terceira vez eu chorei.


Nem precisei ouvir a música. Lembrei dela no banco da estação, enquanto esperava por ele e me sentia sozinha, deixada de lado. Entendi cada pedaço da letra que antes era um enigma, e cada pedaço da música que é tão avassaladoramente melancólica, que é tocante, definitiva e sem esperanças, mas de uma realização serena, forte e imensa. Esse era o tipo de amor que eu não entendia: a contradição. Devia ser o único tipo que eu podia escolher. Então cantei a música sem parar, emendando o final no começo, até ele chegar. Enquanto esperava, chorei soluçando no banco da estação, vendo os trens passarem um depois do outro. "O amor e a agonia cerraram fogo no espaço, lutando horas a fio"... Essa luta eu conhecia. E o cio também vencia o cansaço. Toda vez eu sabia que as discussões iriam terminar desse jeito. Toda vez eu acertava. Sempre, insistentes demais, o amor e a agonia: nenhum deles vencia.
O erro, então, era tentar entender. "Quem tentar seguir seu rastro se perderá no caminho." Era aceitar ou desistir. Eu queria o amor pra me preencher, e entendi então que o amor era quem mordia um pedaço do coração. Que ele doía, não por defeito, mas por natureza.

Disse Djavan:

"O amor é um grande laço, um passo pr'uma armadilha
Um lobo correndo em círculo pra alimentar a matilha
Comparo sua chegada com a fuga de uma ilha:
Tanto engorda quanto mata, feito desgosto de filha.

O amor é como um raio galopando em desafio
Abre fendas, cobre vales, revolta as águas dos rios
Quem tentar seguir seu rastro se perderá no caminho
Na pureza de um limão ou na solidão do espinho.

O amor e a agonia cerraram fogo no espaço
Brigando horas a fio o cio vence o cansaço 
E o coração de quem ama fica faltando um pedaço
Que nem a lua minguando, que nem o meu nos seus braços."

Ainda é assim. Ainda amo. Ainda tenho esta agonia.


(Assim é tudo. A música, a Teresa, os olhos mais velhos que o corpo: a poesia, a vivência e a sabedoria. Da primeira vez em que se vê até a vez em que se vê de novo, da terceira vez até a última, o que é o tempo senão o aprendizado? Construir idéias. Desconstruir imagens prévias. Ganhar sensações. E algumas certezas:)
Dedução

"Não acabarão com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente."

(Diz que é Manuel Bandeira.)


D
isse ainda Djavan:

"No amor, a tortura está por um triz
Mas gente atura e até se mostra feliz
Quando se tem o álibi
De ter nascido ávido
E convivido impávido
Mesmo sem ter havido."

 
Estou pueril e esperançosa. Mas cansada como se já tivesse vivido uma vida.
E, por não me importar em falar de coisas românticas duas vezes num dia, não me importar em falar de música duas vezes num dia, não me importar em mostrar das duas vezes que eu estou pueril, não me importar em não ter chegado a conclusões, talvez tenha voltado a escrever sem preocupações.

Naima, para você ouvir

A música começou a tocar sem que eu pudesse prever.
Faz lembrar de sonhos antigos, que hoje são de verdade. Mas hoje não são o que eram. Você — você — você sabe o que são.
Agora, de repente quero ouvir Naima para sempre.

Imagino. Fazer minha pulsação desacelerar até chegar ao ritmo desse improviso de piano, um doze por oito moroso preenchido de longos silêncios; e de acordes lentos, esticados, entremeados de ataques subitamente fortes, mas sempre espessos, grandes, redondos, como se fossem orientados por um metrônomo que bate em câmera lenta; e de frases feitas com a beleza de cinco ou seis notas espalhadas por dois ou três compassos. Andar nesse ritmo, falar nesse ritmo, abraçar nesse ritmo, trocar olhares nesse ritmo, e então fechar os olhos. Respirar nesse ritmo, e nesse ritmo sentir a outra respiração. Um baixo discreto por trás, e a levada tranqüila pela bateria: os dois instrumentos imitam a métrica de uma poesia soprada em cochichos. Sussurrando, sussurrando, sussurrando, sussurrando.
Imagino. Ouvir o sax ressurgir, retomando o tema pela metade. Entender essa melodia descomplicada mas inquietante, bonita e estranha, que dá ao saxofone um timbre macio e, ao mesmo tempo, cortante. Repeti-la, repeti-la. Morrer, então, ao fim da vida. Sentindo que a cumplicidade entre o sax e o piano já tomou conta da corrente sangüínea e se transformou em cumplicidade entre meu corpo e minha mente, entre meu entendimento e a humanidade. Sentindo que minha respiração parou da mesma forma que a música, na nota tônica, com um singelo acorde de sexta. Final em fundamental.

A música tem o ritmo dos pôres-do-sol e dos céus estrelados que eu queria ter visto abraçada com você.
Entendeu?

sexta-feira

La Poderosa

Nuvidade ninhuma, aqui, durante cinco dias.
(Tenho a gloriosa estatística de 1,5 leitor por dia neste blogue, e peço desculpa ao leitor e à metade de leitor que entraram a cada um destes dias e não encontraram distração à altura do leal esforço.)
Tanto tempo sem escrever foi por causa de arrumação de malas.

Eu fui quem mais sentiu falta (claro que eu escrevo porque gosto do texto, mas quem lê é porque gosta de mim — se chama solidariedade, saca?). Neste tempo, reli A Caverna, reli Miguilim e não pude comentar nada. Nem com ninguém.


Em Diários de Motocicleta, a motocicleta sai de cena na metade.
"A trajetória, antes de um modo de ir, somos nós mesmos", me disseram antes que eu .
De certa forma, também acho.


Daqui a pouco nossa Poderosa vai ser um Gol 97; vamos lotar o bagageiro, mas ficar bem menos tempo viajando.
(Tinha que ver esse maldito filme agora.)
E também vamos ter diários: vai ser delicinha.

Quando voltar, quero ver recadinhos carinhosos dos meus amigos carinhosos. E também eu quero ter causos pra contar.
Se eu voltar...


(E, ei você: curta as férias.)

sábado

Upgrêide no sáite

Fala aí: com uma janelinha tão bonita que vai abrir quando você clicar aí embaixo, vai dar até vontade de deixar um recadinho.

Brigada

Falar de coisa boa agora.

Olha só que gostoso: ontem ainda ganhei mais presente. E teve os de anteontem. Nenhum deles foi nada convencional. Todos foram uma delícia de carinho e criatividade.

Chocolate da minha mãe, e bombom do Serginho.
Um cinema com a turma e um colo do Cadu.
Telemensagem da Talita, cartão virtual da Laís, recado da Kátia no blogue e torpedo da Regiane no meio do filme.
Telefone da Lu, do Flávio, da titia, da Evelyn, da Julinha, da Nathália, do Alvarinho, do Cadu, do meu pai, e email da Dani.
Abraço de muita gente.
Uma fita da Lu com história, e uma fita do Flávio com música.
Também um cartão lindo.

(Ai ai ai, será que esqueci alguém.)

Brigada.

E chega deste clima de balão e chapeuzinho, e desta mania de enumeração. Assim é fácil escrever.

Aí, faz isso não

Já me vi algumas vezes em fogo cruzado entre dois amigos meus. É ruim demais.

Mas eu ajo lembrando que meus amigos não precisam de advogado de defesa. Atuar como defensora deles seria insinuar que eles precisam que alguém prove como eles são incríveis. Eles apenas são incríveis, e quem não vê é que está perdendo.

Só isso mesmo que eu tenho vontade de dizer quando estou nesse fogo cruzado, mesmo que esteja lá sutil e indiretamente. Dizer assim, a cada um dos dois amigos: você não sabe o que perde. Você é um pouco menos feliz, e nem sabe disso.

sexta-feira

E vai passar

Um café maneiro hoje à noite na Paulista,
Um abraço gostoso em quem me deu um presente lindo,
Sorocaba ou São Paulo, e um parabéns para quem eu não conheço muito mas de quem já gosto,
Quarenta fitas cassete, duas caixas de disquete, nove blocos de anotação e oito fitas para mini-gravador, quatro pilhas recarregáveis de potência 2.200, dez filmes ISO 400 com 36 poses e um gravador digital com capacidade para oito horas em qualidade LP,
Roupas, livros, escova de dente portátil, pijamas e malas,
Um antigo grupo de oração,
Conserto na lente da máquina, check-up no carro e pé na estrada por vinte dias.

Saber abraçar você tranqüilamente, serenamente, todos os dias.

Já passou

De manhã acordei sem saber que dia era, sentindo um ódio muito grande. Tinha sonhado com um cigarro de fumaça branca que eu fumava nervosamente, com raiva e ansiedade, mas sem conseguir fazer cair as cinzas; e com uma vagabunda desconhecida e atrevida que eu queria socar mas só conseguia olhar nos olhos. Ninguém peça nenhuma explicação a mais do que estas.

Ainda por muitos minutos depois de acordar eu podia sentir o ódio, o vento espesso, forte e gelado que estufava o peito e me impulsionava para frente: se aquela mulher existisse, se eu a visse na frente, eu podia arrancar todos os cabelos dela. Arrancar o cabelo não, que é coisa de briga de galinha: eu me sentia um homem forçudo, uma mulher vingativa.


Aí minha mãe me acordou direito e me deu parabéns e chocolate.

Não fui à Zepa mas fiz compras,
Ganhei presente que acabei de "abrir" e chorei, comprei presente que ainda não entreguei,
Recebi telemensagem, telefonema, recado na secretária eletrônica, abraço e cartão, e o Beto não ligou.
Falei com a vovó e a titia.

Mas o dia tinha uma mancha triste insistente demais. Aí eu chorei e o Cadu me consolou. Igual a nos outros dias.

quinta-feira

Alegria, hoje, é...

... acordar e ganhar moedinhas de chocolate Pan da minha mãe, e ir fazer compra na Zepa daqui a pouco.

... receber por email um cartão inesperado e muito sincero, poder responder ao cartão, e aguardar pedindo a Deus um telefonemazinho só, só um, que me salve.

... lembrar que no blogue daquela menina de lá tem link pra plástico-bolha virtual (fora a menina, a paixão, os amigos, a vida borbulhante e tudo o mais que eu adoro nela).

Em dívida com a fome

Quem dá o significado das coisas e dos acontecimentos é a gente. A festa foi boa ou ruim se a gente se dispôs a curtir ou resolveu ficar parado no cantinho. A vida tem o tom que a gente dá pra ela.

Quem viveu intensamente é porque soube ser feliz nos momentos que teve. Quem desperdiçou a vida é porque escolheu fazê-lo.

Eu não sei viver intensamente — e muito menos escrever sobre isso.