A primeira vez que ouvi a música,
achei que ela vinha do sobrenatural.
Me encantei, senti um arrepio, fechei os olhos, disse "mas é linda!"; e deixei ela de lado, esperando significação.
Quando ouvi a música de novo
estava no momento de achar tudo romântico.
A música já era minha, já era de dentro, mas eu ainda não entendia.
Da terceira vez eu chorei.
Nem precisei ouvir a música. Lembrei dela no banco da estação, enquanto esperava por ele e me sentia sozinha, deixada de lado. Entendi cada pedaço da letra que antes era um enigma, e cada pedaço da música que é tão avassaladoramente melancólica, que é tocante, definitiva e sem esperanças, mas de uma realização serena, forte e imensa. Esse era o tipo de amor que eu não entendia: a contradição. Devia ser o único tipo que eu podia escolher. Então cantei a música sem parar, emendando o final no começo, até ele chegar. Enquanto esperava, chorei soluçando no banco da estação, vendo os trens passarem um depois do outro. "O amor e a agonia cerraram fogo no espaço, lutando horas a fio"... Essa luta eu conhecia. E o cio também vencia o cansaço. Toda vez eu sabia que as discussões iriam terminar desse jeito. Toda vez eu acertava. Sempre, insistentes demais, o amor e a agonia: nenhum deles vencia.
O erro, então, era tentar entender. "Quem tentar seguir seu rastro se perderá no caminho." Era aceitar ou desistir. Eu queria o amor pra me preencher, e entendi então que o amor era quem mordia um pedaço do coração. Que ele doía, não por defeito, mas por natureza.
Disse Djavan:
"O amor é um grande laço, um passo pr'uma armadilha
Um lobo correndo em círculo pra alimentar a matilha
Comparo sua chegada com a fuga de uma ilha:
Tanto engorda quanto mata, feito desgosto de filha.
O amor é como um raio galopando em desafio
Abre fendas, cobre vales, revolta as águas dos rios
Quem tentar seguir seu rastro se perderá no caminho
Na pureza de um limão ou na solidão do espinho.
O amor e a agonia cerraram fogo no espaço
Brigando horas a fio o cio vence o cansaço
E o coração de quem ama fica faltando um pedaço
Que nem a lua minguando, que nem o meu nos seus braços.
"
Ainda é assim. Ainda amo. Ainda tenho esta agonia.
(Assim é tudo. A música, a Teresa, os olhos mais velhos que o corpo: a
poesia, a vivência e a sabedoria. Da primeira vez em que se vê até a vez em que se vê de novo, da terceira vez até a última, o que é o tempo senão o aprendizado? Construir idéias. Desconstruir imagens prévias. Ganhar sensações. E algumas certezas:)
Dedução
"Não acabarão com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente."
(Diz que é Manuel Bandeira.)
Disse ainda Djavan:
"No amor, a tortura está por um triz
Mas gente atura e até se mostra feliz
Quando se tem o álibi
De ter nascido ávido
E convivido impávido
Mesmo sem ter havido.
"
Estou pueril e esperançosa. Mas cansada como se já tivesse vivido uma vida.
E, por não me importar em falar de coisas românticas duas vezes num dia, não me importar em falar de música duas vezes num dia, não me importar em mostrar das duas vezes que eu estou pueril, não me importar em não ter chegado a conclusões, talvez tenha voltado a escrever sem preocupações.