Em dia com a fome

           [Olha que não há mais metafísica no mundo
           senão chocolates.
]


quarta-feira

Boa, Betosa

Se a vida lhe der as costas, PASSE A MÃO NA BUNDA DELA.
Assim mesmo, em caixa alta.

domingo

Entre aspas
"Take these sunken eyes and learn to see"

"Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise.

Blackbird singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see
All your life
You were only waiting for this moment to be free.

Blackbird fly, Blackbird fly
Into the light of the dark black night."

(Deixa eu assassinar o original. É assim:

Pássaro-preto cantando na calada da noite
Pega essas asas quebradas e aprende a voar
Toda a tua vida
Estavas só esperando este momento para levantar.

Pássaro-preto cantando na calada da noite
Pega esses olhos fundos e aprende a ver
Toda a tua vida
Estavas só esperando este momento para ser livre.

Pássaro-preto voa, Pássaro-preto voa
Dentro da luz da noite escura e negra.)


Eu antes teria preferido citar "Take these broken wings and learn to fly", em um título de pôste. Voar era muito mais bonito. Significava evoluir, avançar, viajar. E conhecer, no sentido de ter experiências e trocar vivências.

Mas conhecer, agora, é ver. Seja mesmo ficar quietinha no meu canto, sem ajudar ninguém, sem conhecer ninguém, sem criar. Só olhar.

Ver ou voar. É sempre uma escolha?

(Let it be, let it be
Let it be, let it be
Yeah, there will be answer, let it be
Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom, let it be
— pra Beta, pros amigos, pra vocês. Pra mim.)

sábado

As próprias aspas

Eu já tentei escrever como Guimarães Rosa. Tem gente que ainda tenta. Eu já tinha 18 anos. Era ingênua como uma menina de cinco. E começava a perceber que crescia.

Naqueles textos eu usava uns três travessões por parágrafo — abusando como se inventasse uma cadência própria — mas tudo tinha um tom mais singelinho. Pueril — simples... Não inventava palavras. Mas gostava de mudar estruturas de frases, mexer nas pontuações; tudo aquilo era a forma que eu até então conhecia para escrever diferente.

Naquela época, no primeiro ano da faculdade, escrevi este texto. Reencontrei-o hoje. Hoje ainda sou ingênua como uma menina de dez. Mas, às vezes, também sou triste como uma menina de 40. (Eu ouço mesmo Djavan como uma mulher casada?)

Semana que vem faço 20.


Vocação

noite, na cama, com sono, ela sentiu saudades. O namorado, o que se jurou companheiro — o amigo — partira em passeio, ao sul, ao longe, pra quando (— ela descobria Guimarães Rosa). E ela, mesmo menos vazia depois de uma oração, mas ainda tão na mesma e tão ainda sempre em dúvidas — ficada em Sampa — alguma coisa acontece no meu coração...


Então pra ajudar alguma coisinha em sua ansiedade de perguntas, ele, que sempre respondia às dúvidas quase todas — pois que ele sabia perguntá-las junto com ela — ele indagou como é que era que ela imaginava essa profissão, essa ocupação, esse trabalho e serviço por que ela tanto pedia, anseando no peito.

Uma vez que o coração dela já sabia a pergunta, ela pôde encontrar também a resposta; e foi por isso que só se sorriu, com a boca e os olhos, e com a alma — que isso no coração ela sabia. Demorou um instante justinho pra pensar — na escova de dentes portátil, aquela que desmontava e fechava! que tinha na bolsa. Tirou-a e a mostrou para ele: ainda o sorriso só nos olhos... E, como o sorriso dele já só dizia que esperava sua explicação, ela principiou pedindo calma e atenção, que ele não risse dela mesmo que parecesse pueril aquilo que ela ia ensinar (sabia ela que até à gente mesmo se precisa pedir complacência, quando é pra gente se compreender e levar a sério).

Era, dizia, que ela gostava talvez de usar aquela escova mais do que o normal seria: era que com ela se imaginava podendo sempre partir em viagem... — disse, pondo-lhe o objeto nas mãos.

Aí abriu de novo o zíper da bolsa e foi tirando, um a um escolhidos, com olhos de pausas, que ela pôs diante dele: uma caneta. A Bibliazinha. Seu caderninho de notas. E um telefone celular. Coisas, que claro que ela usava todos os dias: rotineiros, anódinos eram aqueles seus objetozinhos. Mas, no seu fundo do pensamento do todo-dia, ela podia sabê-los na bolsa e talvez uma hora se sentir jornalista: e o seu editor a qualquer hora poderia ligar, e trovejar, "um furo histórico em Brasília! Pegue o primeiro avião, contate a sucursal e me traga a matéria!", e ela poderia lá se ir, voando prevenida com o seu bloquinho e sua escova de dentes — do que mais precisava afinal? Mas — parou — era que, e a Bíblia, ficava no máximo pra ela ler durante o vôo ou nem isso — que ela tinha que estar pensando em sua pauta, e na volta já tinha que estar redigindo. Talvez de noite no hotel, sim, mesmo se estivesse muito cansada?

Mas seu pensamento a concebia — dizia — outra hora missionária. Com os olhos graves (embora o sorriso ainda na alma) ela afirmava que no fundo falava sério sempre que pensava que poderia viver com pouco mais que sua escova de dentes portátil. E que a sua Bibliazinha poderia construir o que ela — o que Deus quisesse... Paredes, escolas, moradas, projetos — espíritos: que poderia construir vidas. No entanto, ou ela ainda não via claro direito ou então lhe faltava a serventia para o caderno e a caneta, e lhe faltava a utilidade do telefone. Missionária, ela via-se longe de muitas gentes...


Ah, que aquilo não era um jogo de quebra-cabeça! — disse a ele um sorrisinho nos olhos baixos e graves, mesmo que os olhos já sentissem que ele o sabia — ele, de fato, sorriu nos lábios e assentiu com a cabeça, e o coração. Pegou-lhe as duas mãos com um suspiro.

Um pouquinho demorou que ela deu outro suspiro e tornou a falar: que (pegando no telefone) com isto precisando a chamavam onde estivesse. Que ela podia ir (olhando a escova), que manter-se e se virar não era problema. E — com a mão sobre a Bíblia — que tinha sempre algo a levar — tesouros... E, segurando o seu caderno — teria também coisas para trazer de volta.

Que assim queria ela uma vocação.


Ela não soube se então ele a achou por demais sonhadora e utopista, ou idílica numa meiga imaturidade, ou talvez se de algum jeito a admirou ou invejou — fato é que ele a aconchegou no seu peito e beijou seus cabelos. E foi um instantinho só após que ele quis levantar o seu rosto para beijá-la nos lábios, mas já ela tinha adormecido — talvez tivesse até já começado a sonhar."



(É claro que ele não é você. É claro que ele não existe. Aliás ela também morreu — por enquanto ao menos. Porque isso sou eu quem decide.)

quinta-feira

E, pra ser justa, Maria do Socorro

Talvez eu deva agradecer a Deus por ontem ter ganho uma avó.


Minha avó materna, a vovó Socorro, mora em Belém e eu a amo com força e alegria. Sempre conheci um pouco melhor suas histórias; sempre que a reencontro, eu a conheço mais uma vez. E sinto que poderia amá-la muito mais se estivéssemos perto.


Nenhum dos meus avôs eu conheci (eu sei que o plural é avós, ora mas não atrapalhe um momento de nostalgia). Sei que o paterno se chamava Américo, como meu pai, e que o materno se chamava Arlindo, como meu tio. Sei que o primeiro morreu de leucemia em São Paulo, sei que o segundo era enfermeiro em Belém. Vô Américo, pra mim, parece com Juscelino Kubitschek. De vô Arlindo, vi pela primeira vez uma foto da última vez que fui a Belém. Vovó guarda a única foto dele na gaveta da cômoda, e pediu para eu fotografá-la e guardar as cópias. O papel já está velhinho.


Quando eu conheço avós legais me dá vontade de adotá-las. Primeiro eu disse que ia adotar a dona Diva, avó do Beto. Fui até a favela do Jaguaré com ele para tirar fotos, e conheci sua avó. Tenho três cenas dela em preto e branco. Bonitas. Uma delas com todos nós na foto, outra dela sentada ao lado do Beto. Na última, ela está olhando para a parede da sala, cheia de quadros antigos e fotos da família. Bonita mesmo.

Depois eu conheci a dona Ruth, avó do Cadu. Eu nunca contei pra ele que tenho vontade de adotar a dona Ruth. Não precisa, ele sabe que eu gosto tanto dela. Daqui a pouco ela vai andar sem dor nos joelhos.

Neste fim de semana eu vi pela terceira ou quarta vez a vó Elisa, que é da Luciana. Ela é, assim, um amor. Insistiu umas sete vezes para o Cadu comer mais feijoada. E eu sei que a Lu adora ela.


Avó é a coisa mais lindinha do mundo.
Uma das filhas pode ser Ruth. Mas a outra vai ser Maria. Combinado?

quarta-feira

Francisca

"A criança recebe do passado não só os dados da história escrita; mergulha suas raízes na história vivida, ou melhor, sobrevivida, das pessoas de idade que tomaram parte na sua socialização. Sem estas haveria apenas uma competência abstrata para lidar com os dados do passado, mas não a memória.
Enquanto os pais se entregam às atividades da idade madura, a criança recebe inúmeras noções dos avós, dos empregados.
(...)
É graças a esta "outra socialização", à qual a Psicologia tem dado pouca atenção, que não estranhamos as regiões sociais do passado: ruas, casas, móveis, roupas antigas, histórias, maneiras de falar e de se comportar de outros tempos. Não só não nos causam estranheza, como, devido ao íntimo contacto com nossos avós, nos parecem singularmente familiares.
O que é um ambiente acolhedor? Será ele construído por um gosto refinado na decoração ou será uma reminiscência das regiões de nossa casa ou de nossa infância banhadas por uma luz de outro tempo?
(...)
Há dimensões da aculturação que, sem os velhos, a educação dos adultos não alcança plenamente: o reviver do que se perdeu, de histórias, tradições, o reviver dos que já partiram e participam então de nossas conversas e esperanças; enfim, o poder que os velhos têm de tornar presentes na família os que se ausentaram, pois deles ainda ficou alguma coisa em nosso hábito de sorrir, de andar. Não se deixam para trás essas coisas, como desnecessárias. Esta força, essa vontade de revivescência, arranca do que passou seu caráter transitório, faz com que entre de modo constitutivo no presente. Para Hegel, é o passado concentrado no presente que cria a natureza humana por um processo de contínuo reavivamente e rejuvenescimento."
Ecléa Bosi, Memória e sociedade: Lembranças de velhos, 1979.

Quero uma avó, pra ser gente.


Tenho a impressão de que a conheci hoje. Ela tinha o nariz tão caracteristicamente italiano, e a vida toda usou o cabelo curto, com a risca feita de lado, as ondas dos cachos tão ordenadas, acalmadas sobre a testa. Os cabelos ondulados emolduravam o rosto. Quando eu tinha sete anos já eram ondas brancas. Na cama em que hoje eu durmo, ela passou meses sobre um colchão de água coberto com lona azul, sentindo dor, sofrendo de úlcera, e eu lembro que rezei um pai-nosso para ela não morrer. Os cabelos não estavam mais alinhados. Ela se sentira mal e fora às pressas para o hospital. Acho que foi a última vez em que a vi andando. Saiu de casa com um lenço amarrado, cobrindo os cabelos. Elegante. Voltou alguns dias depois, talvez semanas depois. Para ficar deitada na cama. "Cama de viúva", minha mãe me ensinou depois, quando herdei o leito: um pouco mais larga que a cama comum de solteiro.

Não lembro como ela morreu, não recordo quando. Tenho a imagem de uma noite em que eu e meu irmão dormimos com uma babá. Depois descobri que era a noite do velório dela.

Então, viajamos. Perdi quase todas as memórias. Na imagem da vó Francisca, retalhos. Os casaquinhos e os vestidinhos, como nunca mais vi. Ela usava estampas de antigamente, tecidos de antigamente. Só ela usava. Ela era elegante. Lembro de ter gritado uma vez com ela, quando ela queria me consolar no cantinho do castigo. Quando lembrei disso de novo e ela já estava morta, chorei. Ela era minha avó. Lembro de andar pelo jardim, já quando ela ia bem devagar, e dar meu braço a ela como apoio. Lembro dela começando a chorar, dizendo: "quando eu morrer..." Meu pai não a deixou terminar a frase.

Depois descobri que ela era, para o resto da família, a vovó Chiquinha. Pra mim, sempre foi a vó Francisca. Hoje esse nome já não faz tanto efeito em mim. Mas também lembro de um tempo em que "Francisca" só podia ser minha avó.

Em todas as lembranças, o cabelo branco ondulado é o traço mais forte. Só percebi isso quando vi as fotos do casamento, em que as ondas emolduravam o rosto da mesma maneira. E nas outras fotos, em quase todas.

Ontem conheci minha avó com cachos castanhos. A mocinha, que parece que chamavam de Francisquinha, que casou com o Américo em 1931. A italiana do Brás que tinha três irmãs e quatro irmãos, que estudou pintura e piano, a Francisca Sorrentino cuja família veio de Sorrento e que tocava Torna a Surriento ao piano, que pintava reproduções e naturezas mortas e que depois de casada deixou de assinar Sorrentino para marcar nos quadros "Francisca Pellegrini". Eu, foi no primeiro ano de faculdade que escolhi assinar minhas matérias como Diana Pellegrini. Pellegrini é o meu sobrenome.

No meu quarto, há três quadros dela. Dois deles fazem par: são a "Tarde" e a "Noite parisiense". O da noite é de todos o meu preferido. O jogo de luz é perfeito. Os lampiões que ela pintou parecem brilhar de verdade, e os reflexos no chão molhado da chuva são muito realistas. Uma moça aperta o sobretudo para se proteger do vento, e segura com força o guarda-chuva, andando apressada para chegar ao seu apartamento parisiense, secar-se e trocar a roupa molhada. Na mesma calçada, em sentido contrário, vai um casal.

Imagino que a vó Francisca fosse romântica.

Eu sei que meu pai gostava tanto dela. Que ele teria evitado todas as chateações no fim da sua vida. Ela merecia tanto. Talvez toda avó mereça tudo. No mínimo, a satisfação e o descanso.

E tem uma foto que eu e minha mãe roubamos ontem do álbum para colocar no porta-retratos. Vó Chiquinha e vô Américo. Não conheci meu avô. Os dois estão sentados, encostados a um painel de azulejos no pátio da casa que tinham na rua Coronel Frias. Ipiranga. (Eu morei nessa casa até os dois anos, e não me lembro dela.) O assento é de pedra trabalhada. Os azulejos retratam alguma paisagem, com uma árvore alta, de galhos magros e pequenas copas esparsas. Sobre o painel há um lampiãozinho, e o topo do muro é curvo, encimado por telhas curvas. Uma moldura de gesso azul ao redor dos azulejos e do muro.

Está minha avó à esquerda e meu avô, mais alto, mais compenetrado, mais velho, à sua direita. Ele usa um terno cinza muito claro, uma gravata preta. Todas as suas fotos me lembram inevitavelmente Juscelino Kubitschek. Se vê claramente sua aliança na mão esquerda. Meu pai me contou hoje que vó Francisca perdeu seu anel de noivado no ralo de uma pia. Na hora, ele não quis abrir o ralo e procurar a jóia. Disse hoje que, se voltasse à casa da Coronel Frias, daria dois mil reais para abrir o encanamento da pia e reencontrar o anel. É claro que o valor foi aleatório. Eu acredito que ele poderia dar bem mais. Evocou o assunto por causa do piano Bechstein que meu avô Américo mandou importar para vó Francisca, e que eles depois venderam para comprar aquela casa. "Eu pago qualquer coisa se encontrar aquele piano." Justo meu pai.

Eu queria vê-lo chorar ao reencontrar o anel.

Na foto da Coronel Frias, bate um sol de fim de tarde. Vó Francisca tem reflexos nas ondas dos cabelos. Usa um par de brincos de pérola que devem ser os mesmos que eu a vi usando, anos depois. Seu vestido é simples, de um pano branco estampado com ramos de flores azuis. O corte é o mesmo que ela usava ainda quando me conheceu. Seu braço esquerdo abraça o ventre, o direito repousa sobre a coxa esquerda: ela quase cruza os braços.

No momento da foto os dois retraíam a perna direita sob o banco de pedra, e se apoiavam sobre a perna esquerda. Também tinham ambos o olhar perdido na mesma direção. Curioso instante de coincidências. Avô Américo, que tem o mesmo nome que meu pai, recebe o sol brando no rosto. Aperta os olhos, deixa a boca levemente aberta, contempla alguma coisa sem a ver e franze a testa. Vó Francisca também tem a testa franzida, olhando no mesmo sentido, mas parece mais serena. Provavelmente pensavam em algo cotidiano, sentavam-se apenas para descansar do dia. Foi porém a foto que os fez aparecer assim, olhando para o passado e vendo a família e as relações que construíram juntos sem ter consciência mesmo do processo, acordando todo dia e cumprindo aquelas pequenas tarefas diárias: trabalhar, comer, cuidar, tocar piano e violino juntos. Surpresos com o significado que essa trajetória ganha, perto do fim do percurso. Ou então olhando o futuro: e nada vendo, mas antevendo o fim da vida.

Em alguns anos, vô Américo teria leucemia. Morreria em 1963, quando meu pai tinha 27 anos e minha mãe tinha 2 meses de vida. No ano em que ela nasceu. Vó Francisca ainda teria bastante caminho. Dezenove anos depois da morte do marido, ela receberia a notícia de que o filho, também Américo Pellegrini, queria se casar em Belém do Pará. Ela ainda viajou a Belém, ainda acompanhou a viagem dos noivos de volta a São Paulo, ainda viveu, ainda sofreu o que faltava. Ainda conheceu mais dois netos, me pegou no colo quando ainda era forte e os cabelos ainda emolduravam um rosto com a pele jovem e o sorriso aberto. Assim eu lembrava dela: a imagem de quando eu tinha cinco ou seis anos. Antes que ela perdesse o vigor. Antes da úlcera, do desespero — o que é a senilidade senão revolta? Quem chega à idade de ancião tem a sabedoria e a indignação serena para fazer a revolução. Mas nós lhes tiramos as armas.

Lembro coisas tristes. Lembro que vó Francisca chamava minha mãe de Maria, lembro de ter escondido seus brincos bonitos de pérolas para ela não os engolir dizendo que eram comprimidos. Lembro dela dando murros no vidro da porta, dizendo que estava presa, que não a deixavam sair.

Mudaram a vida dela no final?

Não se tem o direito para afirmar. Cada um busca a sua felicidade. A gente não repara nos erros pequeninos que vai escolhendo fazer.

A gente aprende: ela era minha avó. Já disseram, poucas vezes, que eu pareço com ela em algumas coisas. Tenho um sinal no mesmo lugar em que ela tinha um também. Já falaram do nariz, da forma do corpo. Eu não prestei atenção a ela, para hoje saber se chegamos a nos parecer. Sobraram as fotos. Esta aqui, no banco de pedra da Coronel Frias, dá a estranha impressão de que a imagem mais forte em minha memória é a de uma cena de quando eu não havia nascido.

domingo

Unctad II: ainda quero ser Kofi Annan

"Membros de uma vasta gama de profissões realizam missões para o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, com uma duração de 6 a 12 meses. Em geral, espera-se que esses 'especialistas' tenham já três anos de experiência profissional quando principiam a trabalhar para o CICV. Os critérios de recrutamento são mais flexíveis do que para os delegados, no que respeita à idade, estado civil e aptidões lingüísticas."

Bom saber, moço.

sábado

Gentilmente conduzida

Marketing político: venha conhecer este mundo maravilhoso.
Eu devia ter feito o trabalho de Ciência Política, mas só consegui bater papo com o Cadu. Sobre o tema do trabalho de Ciência Política.


Lição de Josef Goebbels, que assistiu ao filme ...E o vento levou mais de vinte vezes: "As massas não entendem a ironia."

Goebbels foi o célebre ministro nazista responsável pela propaganda política do governo de Hitler. Citado em Laurence Rees, Vende-se política, 1992. Para introduzir, na discussão sobre publicidade, os exemplos históricos da propaganda nazista, alguns capítulos desse livro têm o subtítulo "As lições do mestre". E o leitor passa por todo o livro admirando a idolatria do autor pelo mestre Goebbels, pra depois ler: "hoje, o assassinato de seus filhos não parece o gesto heróico de lealdade ao Führer que ele pretendia que fosse, mas um jogo de cena brutal e insensível, típico apenas da criatura imoral que ele sempre foi." Ah, tá. Que bom que avisou em tempo de eu cancelar a inauguração do fã clube.

"Na promoção do programa nazista sobre a eutanásia, por exemplo, ele certificou-se de que a questão seria tratada de um modo sensível e simpático, que permitisse à audiência ser gentilmente conduzida às suas próprias conclusões — conclusões as quais, devido a evidências distorcidas exibidas antes delas, seriam precisamente aquelas que Goebbels queria."

Você já topou com Goebbels hoje?


Da pitoresca página de Fernando Collor de Mello:

"Um ano depois, eu receberia a visita do cineasta Luiz Carlos Barreto. Depois de conversarmos longamente sobre as circunstâncias de minha saída do governo, o premiado produtor de O Quatrilho, bem humorado, exclamou:

- O que este País precisa é de um ditador!

Inicialmente não entendi aquela posição de alguém a quem sempre considerei um combatente da Democracia."

As massas do Reich não entendiam a ironia? Fica frio, Herr Josef: aqui, nem o presidente entende. E a propósito de ironia: o depoimento completo é comovente.

Se chama "Crônica de um golpe: A versão de quem viveu o fato". Tentei encontrar a ironia desse título, mas acho que era sério.


De outro Josef, esse o Josef Stalin. Segundo o mesmo Laurence Rees, ele disse que "uma morte é uma tragédia; um milhão de mortes é uma estatística".
O sujeito então promovia massacres, para evitar tragédias.


De uma matéria com Duda Mendonça:

"Numa entrevista que deu à repórter Ana Carvalho, da revista 'IstoÉ', em 1999, declarou que, se convidado, não faria a campanha de Lula a presidente porque 'é difícil trabalhar para o PT, principalmente numa campanha majoritária. Normalmente ninguém termina as campanhas do PT, caem na metade.' Acrescentou ainda que 'Lula não deveria mais ser candidato. A imagem de Lula que vale é a que perde todas.' "

Pois eu concordo: a imagem de Lula que vale é a que perde todas. Foi só ganhar, surgiu um baita telhado de vidro. Se Lula não tivesse sido eleito, seria o melhor presidente que o Brasil já teve. Melhor até que o Tancredo Neves.

quinta-feira

Açaí, persistência e inconseqüência

- Putz, te liguei porque eu tinha que contar pra alguém. Cortei o cabelo bem curtinho!
- Virginie, quero me batizar.
- "Opção de curso: Jornalismo"
- Tá na hora de fazer um estágio...
- Pai, me avança um cheque, eu pago quando sair o salário. Vou tirar a carta.
- Não dá mais. Me demito hoje.
- Topo, claro! É isso que eu quero: trabalhar no que acredito.

- Me desculpa. Preciso aprender a ter menos compromissos.
- Enchi, vou sair do orkut. E é hoje.
- Faz tanto tempo que eu não faço a unha... Vamos marcar pra quinta-feira?

Eu sou boa nas decisões rápidas. E não sou inconseqüente em quase nenhuma delas. Eu pondero; mas eu sou drástica e repentina por achar que, se pensar por mais um dia, posso ter medo e voltar atrás. Por um lado, ainda bem que é assim. As decisões aí de cima, pequenas e enormes, foram importantes e, à sua maneira, corretas.

ltima e minúscula decisão brusca: há alguns dias, eu saí do hábito de novo e fiz as unhas com esmalte cor de açaí. Gostei da cor, é marcante e distinta. Gostei do nome. Me lembra de Belém e da minha avó.
Confidência: esse açaí que se vende por aí não tá com nada. É ralinho, sem gosto, sem corpo. De verdade é o paraense. Mas não precisa sair alardeando a descoberta a todo mundo; não é bom fazer assim. Deixa as descobertas guardadas com a gente. Um dia a gente aprende a nem escondê-las nem exibi-las: o legal deve ser apenas sabê-las. Gosto de açaí, sei do açaí, pois e daí, e acabou.)

(Aliás, penúltima decisão. Porque a última foi: "que se dane, vou fazer logo esse blogue")

Sou boa, sim, nos golpes de genialidade. Nas inspirações súbitas. Só não sou boa no que me exige persistência. Então às vezes saem textos criativos, mas raramente produzo alguma coisa correta quando preciso criar apenas a partir do trabalho, da insistência, do suor. Então não estudei piano, não aprendi violão, não toco mais Debussy, não pratico mais bicicleta, não consegui correr todos os dias, não controlei as calorias, não tenho uma alimentação saudável, não mantenho contato com amigos distantes, não consigo acordar mais cedo, não aprendi a corrigir meus defeitos. Não escrevo mais.

São dois lados de uma moeda só. Às vezes as decisões súbitas vêm de uma tentação muito grande, muito grande de romper um compromisso, acho que para sentir que tenho a vida nas mãos. Foi um pouco assim com a Ansa, quando me demiti. E do vital ao fútil: também foi um pouco assim das três vezes em que cortei o cabelo curto. E de outras vezes em que tomei outras decisões fulminantes.

Algumas foram cabeçadas sem tamanho. Já machuquei um grande amigo, já ofendi minha família e já fui ingrata com quem mais amo. Mais de uma ferida em cada um. Depois disso, tento cuidar mais dos meus compromissos de valor — os compromissos com as pessoas. Acho que até agora não consegui muitas mudanças concretas. Só mudei o jeito de pensar. E, além de tudo, aprendi por mal; e não fazendo mal só a mim, mas fazendo mal a quem estava em volta. Coisa pra se lembrar pro resto da vida e dizer "que merda". Que merda.

Desculpa.

Eu sei quais compromissos me prendem à vida e me prendem a um mínimo de constância. E, se hoje estou irresponsável e preguiçosa, ao mesmo tempo estou tentando ser persistente. Em viver, sei lá. Em praticar aquilo que quero ser. Em algo assim, sabe o que é? Então, é isso aí mesmo; é esta nossa fome.

No fim, este blogue pode durar só um mês. E, se o meu empenho com ele durar mais de trinta dias, cada novo recado vai ser um pequeno motivo pra rir de mim mesma. Desacreditar a preguiça! E talvez chegar a acreditar que eu também possa ter vitórias pelo esforço.

quarta-feira

Entre aspas
"Pelo menos as cabeças!"

"A única coisa que ela sabia era da força do povo, força de que ele precisava ter consciência, força não só dos números mas daquilo que produzia com suas mãos, cabeças e vozes, pois o povo era o verdadeiro dono do país, não aqueles que o subjugavam para a consecução dos próprios interesses. Tinha certeza de que um dia isso seria reconhecido, de que haveria liberdade e justiça. Agora, como se conseguiria chegar a esse dia ela não sabia, mas não era por não saber que ia ficar de braços cruzados, porque certas coisas podiam ir sendo feitas. Pelo menos as cabeças, pelo menos as cabeças! — dissera com voz inflamada. Pelo menos as cabeças deviam ser abertas, deviam ser libertadas, para que vissem a verdade delas e não a verdade de quem as dominava."

Continua assim, então: citações por conta-gotas. Esta é Viva o povo brasileiro, João Ubaldo. E fala sozinha.
Tá bom, seria fácil se tudo falasse sozinho. Então vale a contextualização: quem fala é a personagem Maria da Fé, no final do século de 1800, que era filha de escrava liberta, e que a essa altura já é a chefe de um grupo de cangaceiros que faz justiça social no sertão da Bahia.

E nisso aí que diz a Maria da Fé, nisso eu acredito. É por isso que eu ainda acho que a educação é o único jeito realmente profundo e duradouro de se tentar mudar o que está errado neste nosso mundão. É por isso que até hoje eu continuo tentando fazer alfabetização de adultos. Porque isso tudo só mostra que o conhecimento e a conscientização são a única arma efetiva contra a injustiça.

A Maria da Fé, com doze anos, ia ser professora. Mas mataram a mãe dela.

terça-feira

TPM e TNT

Deixe Hollywood comover você.
Peguei na tevê o final do Gladiador. Como já estava levando um papo com minha tendência depressiva há um tempinho, choramos eu e ela, vendo o bem vencer o mal na voz e olhos introspectivos, determinados, profundos do tal do Russel Crowe.
Roma foi um império sanguinário. Mas eu quero os grandes ideais que ela inspira. O Crowe pode ser um metido comum. Mas eu quero a profundidade com que ele interpreta.
E, fora isso, o que me faz mais falta agora é matar o imperador tirano para depois morrer com honra e terminar andando pelos meus campos de trigo enquanto meu filho corre em minha direção.

Unctad

Queria ser inteligente mas não saber ler
Queria ser perspicaz mas não ter acesso às estatísticas
Queria ter disposição mas não ter tarefas demais para realizar
Queria entender música mas não poder pagar aulas
Queria saber conversar bem mas não conhecer muita gente
Queria ser bonita mas não ter dinheiro para roupas e maquiagem
Queria, no máximo, ser sensível e consciente mas não ter tempo para solidariedade.

Realização.
Se eu fosse pobre, ainda pensaria que teria podido ser Kofi Annan. E então seria professora, casaria ainda jovem, iria à igreja aos domingos; cozinharia bem, veria a novela e o Jornal Nacional, ouviria música romântica e teria um filho.

Porém na Espanha eu tive consciência de que queria ser aquelas crianças de Villanueva del Fresno, e no Marrocos eu tive consciência de que não era aquelas mulheres muçulmanas, e em Israel eu tive consciência de que estava no centro do mundo, e na Grécia eu tive consciência de que podia me comunicar em muitas línguas, e na França eu tive consciência de ter sido desprezada por ser latino-americana, e em Liechtenstein eu tive consciência de estar em um país artificial, e na Palestina eu não casei com o taxista; e agora eu sei que posso ser Kofi Annan e não o serei.

Entre parênteses

(O blogue completou uma semana... é persistência ou ainda é vício?)

segunda-feira

Suspiro

Divide esta vida comigo:
no fundo, é tudo o que eu quero
de alguém que esteja ao meu lado.
Pega esta nossa existência
de um lado, que eu pego do outro
e duas vidas somadas
têm só metade do peso.

Entre aspas
"Pede que o caminho seja longo"

Coleção "Olha só o Fulano — eu transcrevo e quem lê dá a vida". Volume 1.

Ιθάκη
Σα βγεις στον πηγαιμό για την Ιθάκη,
να εύχεσαι νάναι μακρύς ο δρόμος,
γεμάτος περιπέτειες, γεμάτος γνώσεις...

(Parece grego? É grego. Ah, desculpa.)


Ítaca
Do grego Constantinos Cavafis, em 1911
(Tradução de Ivo Storniolo)
"Quando empreenderes tua viagem para Ítaca
pede que o caminho seja longo,
cheio de aventuras, cheio de experiências.
Não temas os lestrigões nem os ciclopes
nem o colérico Posídon, pois
jamais encontrarás tais seres em teu caminho,
se teu pensamento é elevado, se seleta
é a emoção que toca teu espírito e teu corpo.
Nem os lestrigões nem os ciclopes
nem o selvagem Posídon encontrarás,
se não os levares dentro de tua alma,
se tua alma não os ergue diante de ti.

Pede que o caminho seja longo.
Que sejam muitas as manhãs de verão
em que chegares - com que prazer e alegria -
a portos antes nunca vistos.

Detém-te nos empórios da Fenícia
e compra formosas mercadorias,
nácar e coral, âmbar e ébano
e todo tipo de perfumes voluptuosos,
quanto mais perfumes voluptuosos puderes.
Vai a muitas cidades egípcias
para aprender e aprender com seus sábios.

Tem sempre Ítaca em teu pensamento.
Tua chegada lá é teu destino.
Mas nunca apresses a viagem.
Melhor que dure muitos anos
e que atraques, já velho, na ilha,
enriquecido com tudo o que ganhaste no caminho
sem esperar que Ítaca te enriqueça.

Ítaca te brindou tão formosa viagem.
Sem ela não terias empreendido o caminho.
Mas agora nada mais tem a dar-te.

Embora a aches pobre, Ítaca não te enganou.
Assim, sábio como te tornaste, com tanta experiência
já entenderás o que significam as Ítacas."


Resumo da vida. Felicidade é um troço simples, constante e firme. Não é um objetivo dourado no fim do caminho, mas a construção do próprio caminho. Quem pode querer mais?
E, eca, se tentar comentar mais o poema eu estrago ele.

(Eu acabei mesmo de dizer que a iminência é que é a própria felicidade?...)

sábado

Resposta

Pois eu me sinto bem, me sinto bem.

(No momento em que Rosa Passos canta "Oh, Deus, como eu sou infeliz, oh, Deus, como eu sou infeliz".)

Desde que acordei ontem tenho o rosto menos pálido, tenho menos sono, tenho menos compromissos, tenho menos peso. Revi gente, conversei com mais gente. Sei, sim, que estou indo em frente.

(No momento em que ouço "Heaven, I’m in heaven, and my heart beats so that I can hardly speak... and I seem to find the happiness I seek when we’re out together dancing cheek to cheek."
"Heaven, I’m in heaven
And the cares that hung around me through the week
Seem to vanish like a gambler’s lucky streak
When we’re out together dancing cheek to cheek.")

Hoje, junto com Frank Sinatra, posso me sentir assim fútil e confortável. Perdendo tempo. Ganhando tempo.

(No momento em que ouço "Barra do Ribeiro" de novo. A música que me fez chorar pisca um olho. O resto delas tira sarro de mim.)

E afinal, que horror, até ontem a gente abria este blogue e ele começava dizendo "só queria chorar". Isso não se deve mostrar pros outros. Esqueci que os outros estavam aí.

(Era isso aí que eu tinha de dizer como pedido de desculpas?)

Eu sei que cuidas de mim.

Bom.
A novidade pros amigos era: estou doente.
E a novidade pra mim: claro que estou melhor.
Viver dói, oras. Esparadrapo atrapalha. E amigo ajuda. E chorar sozinha no travesseiro também.

Quando eu falo eu não conto os problemas. Eu resolvo os problemas.

Entre aspas

Os textos podiam também nisto ser iguais às partituras: elas ganham uma personalidade diferente com cada pessoa que as toca. Se fosse assim também com o que é escrito, haveria um jeito de transcrever textos e colocar neles o próprio tom. Interpretar uma música é colocar o coração ao tocá-la; interpretar um livro é racionalizá-lo ao fazer análises acadêmicas.
Interpretar um livro é fazer análises acadêmicas?
Claro que não: também se interpreta como ator, em teatro. Isso é dar vida ao texto, como a uma partitura. Saquei.

Como faço então para lhes dar vida por escrito?
Queria usar citações como se apresenta um amigo: olha só o Fulano, ele tem umas idéias muito legais.

Também deveria dar para citar melodias. Tipo, o que eu queria dizer era isto, olha:

                                                                    . Ouviu?

Queria neste instante fazer assim com Hermeto Pascoal: uma tal de música chamada "Barra do Ribeiro", em que ele toca com um tal de Borghetti, e onde há um acordeon e um piano que dão arrepio de tão lindos.

"Olha só o Fulano": vou fazer isso mais vezes. A gente pode combinar que eu transcrevo e quem lê dá a vida?

ººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººº

E descobri: Renato Borghetti, gaúcho boa-pinta e instrumentista conceituado, que não toca acordeon coisa nenhuma e sim gaita de ponto. O instrumentinho é tipicamente gaúcho, e repetidamente explicado como "uma espécie de pequeno acordeon". Também aprendeu mais uma?

quinta-feira

Sabor de quê

O que é viver assim?
Só queria chorar: chove e Hermeto toca.
Como tudo me toca.
E eu toco o quê?
Se nem a mim...
Nem.
Se preciso de música e chôro para ter alguma poesia,
Se preciso de música para levantar.
Trilha sonora.
Não dá pra viver de dentro, meu Deus?

A força pode agora brotar por dentro.
(Lembra? Lembro. Chopin, pianista italiano, vontade tão grande de beijar e uma certeza atrapalhando tudo. Por que a vida assim, meu Deus?)

Náusea.
Tenho você demais nas lágrimas e filosofias.

Meu Deus, queria tanto olhar pra dentro.
Meu Deus, não preciso ter medo de ficar longe do que está fora?

E de que serve chorar.
(Se tem a mesma serventia de ouvir música.)

Se não vem de dentro. Se racionalizar cicatriza toda espontaneidade. Se eu sei que fui eu mesma que me esforcei para isto. Se eu deveria ter orgulho de ser toda deste ferro enferrujado que pensou que era forte: é obra minha.

Toda noite, só o que eu queria era deitar a cabeça com você. Só o que eu queria era também saber rezar e, com tudo, me sentir segura. Não perdida.
Todo dia, eu queria ter amigos. Ter apoios pra aprender a andar sozinha (e não é essa a definição que eu dou para a amizade).

De que serve escrever. Queria tanto fazer isso pra mim e só. Decidi que, quanto mais olhasse para dentro, mais precisaria de pessoas de valor, ao redor, para me ajudar a ver. Continuo convencida disso. Quero vocês. Apesar de não merecer. Apesar de tudo o que ache qualquer outra pessoa sobre mim.

Adoro e odeio música que me coloca em prantos. Não deveria acabar nunca.

André Breton. Do que preciso para a escrita automática? Quer dizer, conhecer um fluxo de consciência puro. Ter uma mão que acompanhe o pensamento (e não é essa a serventia da música? E pra isso serve chorar). Sei quem é o primeiro de vocês que me dá a receita. Sei que muito mais gente vai ter receitas diferentes.
Loucura e surrealismo, já reprimi faz anos (conservei a que me convinha e agradava, e já é demais para quem está convencido da própria existência). Não, amigo, não quero muletas. Quero holocaustos. E, no entanto, também quero misericórdia.

Quero o sublime, o que pode ser transcendente, a epifania. Penso em tanta gente, em tanto sentimento, em tanta iminência — a iminência constante, como um muro intransponível. Merda, quero um canhão, quero uma picareta, um terceiro olho, uma escada pelo menos pra contemplar... Mas escada não basta: eu sei que se morrer do lado de cá vou morrer triste. Não infeliz, mas carregando esta tristeza grave e pesada em meio a muitas felicidades simples.
Não há essa linha determinando o começo da felicidade: o muro não é um lugar que se transpõe ou não. Mas dá pra sentir tanto a diferença entre estar aqui ou lá. É isso.

Este pôste eu não reescrevo. Nada. Perderá o sentido da sensação imediata. Quem não entender me pergunte.
(Mas acabei de reescrever. Acho então que, em detrimento do imediato, quero a precisão e quero o equilíbrio.)

Preciso de ajuda, que vem de nenhum de vocês.
Preciso só de paz.
Quero só conforto. Conforto; quero um colchão macio ainda... Não é mais aquele da preguiça, não quero o conforto falso de me esconder de mim. Mas preciso de tranqüilidade.



Me falta tanto o conforto de viver.



Preciso da vida correndo. Quero me molhar no rio, meu Deus, que impressão desgraçada de nunca ter experimentado a correnteza. Molhei a canela, senti a temperatura, fiquei satisfeita. Burra.

E onde procurar, me diz. Me molhar no rio, cair de cabeça, eu sinto que poderia mergulhar sem medo de dobrar o pescoço e ficar tetraplégica.
E lógico que não é verdade, tem coisa demais valorosa para jogar pra cima... Tem uma coisa. Tem um compromisso que me segura à vida e à sensatez: e que é às vezes todo o sublime em mim, é às vezes toda a rotina... Mas que é, no fundo, muito da minha gratidão.
E, de compromisso, falta agora o peso daquele maior. Desculpa por não ter tanto assim dele pra dar. Mas tenho uma necessidade tão grande que só isso já não é um testemunho da beleza?
Burra, ainda também nisso.
Tenho ainda a canela molhada. Que medo de que a água evapore: não terei mais nada, e só a lembrança.
Meu Deus, que saudade.

A quem lê sem aviso esta imagem do rio, pode parecer que é só mergulhar para acabar com o problema...

Cadê o rio?, cadê o rio?.

Um dia, improvisar. Um dia, comover. Um dia, convencer. Um dia, salmodiar.

Um dia: é tudo sempre na iminência.

quarta-feira

Iminência

A cabeça que dói, o frio, a ânsia de escrever e o tempo que perdi em frente à televisão, o computador ocupado, Sartre insinuando que eu não existo. Tudo me aborrece.
Sinto necessidade de música, seja de Debussy ou de Blackbird, de Let It Be ou do Barry White que eu acabei de aprender a ouvir. Necessidade também de escrever, mas não só: sobretudo de me expressar fluente, com coesão, com simplicidade, e sem precisar de soluções fáceis, e sem precisar fazer força para fugir delas. Ou só sem a dor de cabeça.

Redigir um texto, ultimamente, acaba trazendo a mesma frustração de tentar tocar piano. A sensação de que a música estava precisamente nas teclas que eu não toquei, e sob a cadência ou a intensidade que eu não soube criar. A Música. A Idéia. Agora, enquanto busco palavras, é a mesma coisa.
As notas resvalam no sentido, as palavras resvalam na imagem, o ritmo puxa a ponta do véu e então a mão inábil esbarra em alguma coisa, um vaso quebra e eu perco o caminho; o véu volta a cair.
Sempre uma iminência.

Engraçado: eu poderia parar por aqui. Já daria para fingir que escrevi; até a semana passada, teria sido suficiente. E, de lá pra cá, nenhuma mudança. Apenas me propus a falar com franqueza e um pouco mais de habilidade. Porque eu não costumo me falar desse jeito. Dá um trabalhão.
Além de tudo tem isso: dá trabalho, o processo é doloroso. A sensibilidade e a criação genuínas exigem esforço braçal? Pois isso soava como uma coisa abjeta. Por isso é que eu só escrevia mesmo bem quando me sentia capaz; senão, desistia. Os textos que eu gostava de ter feito não tinham a dor de um parto. Tinham era a intensidade de uma lágrima caindo: havia a força do sentimento e a curva vertical da bochecha para ajudar as palavras a encontrar o caminho com desenvoltura. Por isso, também, é tão difícil tocar: porque não é natural, como era escrever. Porque preciso fazer exercício todo dia.
Machado de Assis, tendo que escrever todo dia, publicava no jornal obra-primas em forma de crônica. O Cadu, sem nenhum dos meus cinco anos de estudo, senta ao meu piano e improvisa com uma técnica e uma originalidade encantadoras.

Você mesmo. Você é genial, e eu não. (Minha vontade nem é mais essa, apesar de uma invejinha admiradora que eu já confessei que sinto.) Não preciso ser genial, mas talvez seja mesmo talentosa, como você diz.
Me sufoco debaixo de umas mantas fofas e pesadas: chama-se preguiça intelectual. Elas aconchegam, acomodam, trazem um torpor quente. Afastam de mim o ar frio. Mas escondem do ar o meu corpo. A escolha é esta: continuar sonhando no colchão macio ou então chutar as cobertas, lavar o rosto e entrar no chuveiro.
O que mais pesava há alguns dias era que, no colchão, eu só sonhava e não construía nada. Hoje se quero levantar é porque não vejo meu corpo sob as cobertas.

Levantar já é construir.
Me olhar no espelho, me ver.
Está frio.

Então vambora

Primeira coisa. Por que este nome estranho ao blogue.
A música se chama "Boa noite". O cara é o Djavan. O verso está aí acima, e diz que a vida foi feita pra estar em dia com a fome. O sentimento está aqui dentro, e diz que, com a fome, eu estou é em dívida. Vida em anemia...
Eu tenho fome, nestes dias, de um pouco de satisfação e de tranqüilidade. E enquanto tentar preencher essa fome com outras coisas — seja uma causa, seja amizade, ou papo bom, ou trabalho, ou conhecimento, fora todo o resto — vou só estar fugindo. Eu tenho fome de me viver, antes de qualquer outra coisa. E preciso me saciar. Porque é comigo que eu tenho de estar em dia.
Pra isso este blogue e a proposta de escrever. Bem-vindo a bordo, este vôo pode passar por turbulências.

Segunda coisa.
"Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — 'Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!...' E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo."
Não sou fã do estilo de Guimarães Rosa, que às vezes chega a me irritar. (Devo ter ofendido alguém.) Mas olha, gosto muito do que ele fala. Desta vez, quero inventar, do texto dele, este compromisso pra mim: que, em cada coisa que eu disser nesta página, dê pra sentir o compasso do mais certo. Mesmo quando a frase for como um suicídio, como era no conto — que é "A Terceira Margem do Rio". Pode não ser confortável de dizer. Mas vai ser certa. Vai ser precisa. Vai ser enriquecedora. Mesmo que seja um tapa na cara.

E acabei; vamo nessa.