"A criança recebe do passado não só os dados da história escrita; mergulha suas raízes na história vivida, ou melhor, sobrevivida, das pessoas de idade que tomaram parte na sua socialização. Sem estas haveria apenas uma competência abstrata para lidar com os dados do passado, mas não a memória.
Enquanto os pais se entregam às atividades da idade madura, a criança recebe inúmeras noções dos avós, dos empregados.
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É graças a esta "outra socialização", à qual a Psicologia tem dado pouca atenção, que não estranhamos as regiões sociais do passado: ruas, casas, móveis, roupas antigas, histórias, maneiras de falar e de se comportar de outros tempos. Não só não nos causam estranheza, como, devido ao íntimo contacto com nossos avós, nos parecem singularmente familiares.
O que é um ambiente acolhedor? Será ele construído por um gosto refinado na decoração ou será uma reminiscência das regiões de nossa casa ou de nossa infância banhadas por uma luz de outro tempo?
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Há dimensões da aculturação que, sem os velhos, a educação dos adultos não alcança plenamente: o reviver do que se perdeu, de histórias, tradições, o reviver dos que já partiram e participam então de nossas conversas e esperanças; enfim, o poder que os velhos têm de tornar presentes na família os que se ausentaram, pois deles ainda ficou alguma coisa em nosso hábito de sorrir, de andar. Não se deixam para trás essas coisas, como desnecessárias. Esta força, essa vontade de revivescência, arranca do que passou seu caráter transitório, faz com que entre de modo constitutivo no presente. Para Hegel, é o passado concentrado no presente que cria a natureza humana por um processo de contínuo reavivamente e rejuvenescimento."
Ecléa Bosi, Memória e sociedade: Lembranças de velhos, 1979.
Quero uma avó, pra ser gente.
Tenho a impressão de que a conheci hoje. Ela tinha o nariz tão caracteristicamente italiano, e a vida toda usou o cabelo curto, com a risca feita de lado, as ondas dos cachos tão ordenadas, acalmadas sobre a testa. Os cabelos ondulados emolduravam o rosto. Quando eu tinha sete anos já eram ondas brancas. Na cama em que hoje eu durmo, ela passou meses sobre um colchão de água coberto com lona azul, sentindo dor, sofrendo de úlcera, e eu lembro que rezei um pai-nosso para ela não morrer. Os cabelos não estavam mais alinhados. Ela se sentira mal e fora às pressas para o hospital. Acho que foi a última vez em que a vi andando. Saiu de casa com um lenço amarrado, cobrindo os cabelos. Elegante. Voltou alguns dias depois, talvez semanas depois. Para ficar deitada na cama. "Cama de viúva", minha mãe me ensinou depois, quando herdei o leito: um pouco mais larga que a cama comum de solteiro.
Não lembro como ela morreu, não recordo quando. Tenho a imagem de uma noite em que eu e meu irmão dormimos com uma babá. Depois descobri que era a noite do velório dela.
Então, viajamos. Perdi quase todas as memórias. Na imagem da vó Francisca, retalhos. Os casaquinhos e os vestidinhos, como nunca mais vi. Ela usava estampas de antigamente, tecidos de antigamente. Só ela usava. Ela era elegante. Lembro de ter gritado uma vez com ela, quando ela queria me consolar no cantinho do castigo. Quando lembrei disso de novo e ela já estava morta, chorei. Ela era minha avó. Lembro de andar pelo jardim, já quando ela ia bem devagar, e dar meu braço a ela como apoio. Lembro dela começando a chorar, dizendo: "quando eu morrer..." Meu pai não a deixou terminar a frase.
Depois descobri que ela era, para o resto da família, a vovó Chiquinha. Pra mim, sempre foi a vó Francisca. Hoje esse nome já não faz tanto efeito em mim. Mas também lembro de um tempo em que "Francisca" só podia ser minha avó.
Em todas as lembranças, o cabelo branco ondulado é o traço mais forte. Só percebi isso quando vi as fotos do casamento, em que as ondas emolduravam o rosto da mesma maneira. E nas outras fotos, em quase todas.
Ontem conheci minha avó com cachos castanhos. A mocinha, que parece que chamavam de Francisquinha, que casou com o Américo em 1931. A italiana do Brás que tinha três irmãs e quatro irmãos, que estudou pintura e piano, a Francisca Sorrentino cuja família veio de Sorrento e que tocava
Torna a Surriento ao piano, que pintava reproduções e naturezas mortas e que depois de casada deixou de assinar Sorrentino para marcar nos quadros "Francisca Pellegrini". Eu, foi no primeiro ano de faculdade que escolhi assinar minhas matérias como Diana Pellegrini. Pellegrini é o meu sobrenome.
No meu quarto, há três quadros dela. Dois deles fazem par: são a "Tarde" e a "Noite parisiense". O da noite é de todos o meu preferido. O jogo de luz é perfeito. Os lampiões que ela pintou parecem brilhar de verdade, e os reflexos no chão molhado da chuva são muito realistas. Uma moça aperta o sobretudo para se proteger do vento, e segura com força o guarda-chuva, andando apressada para chegar ao seu apartamento parisiense, secar-se e trocar a roupa molhada. Na mesma calçada, em sentido contrário, vai um casal.
Imagino que a vó Francisca fosse romântica.
Eu sei que meu pai gostava tanto dela. Que ele teria evitado todas as chateações no fim da sua vida. Ela merecia tanto. Talvez toda avó mereça tudo. No mínimo, a satisfação e o descanso.
E tem uma foto que eu e minha mãe roubamos ontem do álbum para colocar no porta-retratos. Vó Chiquinha e vô Américo. Não conheci meu avô. Os dois estão sentados, encostados a um painel de azulejos no pátio da casa que tinham na rua Coronel Frias. Ipiranga. (Eu morei nessa casa até os dois anos, e não me lembro dela.) O assento é de pedra trabalhada. Os azulejos retratam alguma paisagem, com uma árvore alta, de galhos magros e pequenas copas esparsas. Sobre o painel há um lampiãozinho, e o topo do muro é curvo, encimado por telhas curvas. Uma moldura de gesso azul ao redor dos azulejos e do muro.
Está minha avó à esquerda e meu avô, mais alto, mais compenetrado, mais velho, à sua direita. Ele usa um terno cinza muito claro, uma gravata preta. Todas as suas fotos me lembram inevitavelmente Juscelino Kubitschek. Se vê claramente sua aliança na mão esquerda. Meu pai me contou hoje que vó Francisca perdeu seu anel de noivado no ralo de uma pia. Na hora, ele não quis abrir o ralo e procurar a jóia. Disse hoje que, se voltasse à casa da Coronel Frias, daria dois mil reais para abrir o encanamento da pia e reencontrar o anel. É claro que o valor foi aleatório. Eu acredito que ele poderia dar bem mais. Evocou o assunto por causa do piano Bechstein que meu avô Américo mandou importar para vó Francisca, e que eles depois venderam para comprar aquela casa. "Eu pago qualquer coisa se encontrar aquele piano." Justo meu pai.
Eu queria vê-lo chorar ao reencontrar o anel.
Na foto da Coronel Frias, bate um sol de fim de tarde. Vó Francisca tem reflexos nas ondas dos cabelos. Usa um par de brincos de pérola que devem ser os mesmos que eu a vi usando, anos depois. Seu vestido é simples, de um pano branco estampado com ramos de flores azuis. O corte é o mesmo que ela usava ainda quando me conheceu. Seu braço esquerdo abraça o ventre, o direito repousa sobre a coxa esquerda: ela quase cruza os braços.
No momento da foto os dois retraíam a perna direita sob o banco de pedra, e se apoiavam sobre a perna esquerda. Também tinham ambos o olhar perdido na mesma direção. Curioso instante de coincidências. Avô Américo, que tem o mesmo nome que meu pai, recebe o sol brando no rosto. Aperta os olhos, deixa a boca levemente aberta, contempla alguma coisa sem a ver e franze a testa. Vó Francisca também tem a testa franzida, olhando no mesmo sentido, mas parece mais serena. Provavelmente pensavam em algo cotidiano, sentavam-se apenas para descansar do dia. Foi porém a foto que os fez aparecer assim, olhando para o passado e vendo a família e as relações que construíram juntos sem ter consciência mesmo do processo, acordando todo dia e cumprindo aquelas pequenas tarefas diárias: trabalhar, comer, cuidar, tocar piano e violino juntos. Surpresos com o significado que essa trajetória ganha, perto do fim do percurso. Ou então olhando o futuro: e nada vendo, mas antevendo o fim da vida.
Em alguns anos, vô Américo teria leucemia. Morreria em 1963, quando meu pai tinha 27 anos e minha mãe tinha 2 meses de vida. No ano em que ela nasceu. Vó Francisca ainda teria bastante caminho. Dezenove anos depois da morte do marido, ela receberia a notícia de que o filho, também Américo Pellegrini, queria se casar em Belém do Pará. Ela ainda viajou a Belém, ainda acompanhou a viagem dos noivos de volta a São Paulo, ainda viveu, ainda sofreu o que faltava. Ainda conheceu mais dois netos, me pegou no colo quando ainda era forte e os cabelos ainda emolduravam um rosto com a pele jovem e o sorriso aberto. Assim eu lembrava dela: a imagem de quando eu tinha cinco ou seis anos. Antes que ela perdesse o vigor. Antes da úlcera, do desespero — o que é a senilidade senão revolta? Quem chega à idade de ancião tem a sabedoria e a indignação serena para fazer a revolução. Mas nós lhes tiramos as armas.
Lembro coisas tristes. Lembro que vó Francisca chamava minha mãe de Maria, lembro de ter escondido seus brincos bonitos de pérolas para ela não os engolir dizendo que eram comprimidos. Lembro dela dando murros no vidro da porta, dizendo que estava presa, que não a deixavam sair.
Mudaram a vida dela no final?
Não se tem o direito para afirmar. Cada um busca a sua felicidade. A gente não repara nos erros pequeninos que vai escolhendo fazer.
A gente aprende: ela era minha avó. Já disseram, poucas vezes, que eu pareço com ela em algumas coisas. Tenho um sinal no mesmo lugar em que ela tinha um também. Já falaram do nariz, da forma do corpo. Eu não prestei atenção a ela, para hoje saber se chegamos a nos parecer. Sobraram as fotos. Esta aqui, no banco de pedra da Coronel Frias, dá a estranha impressão de que a imagem mais forte em minha memória é a de uma cena de quando eu não havia nascido.