Compro e vendo ouro
Vou escrever assim mesmo, "blogue", aportuguesado. Vou pesar os pontos, as vírgulas, os dois pontos, os pontos-e-vírgulas, os plurais de substantivos compostos, o tom das frases, o ritmo do texto. Vou escrever "o ritmo do texto" ao final de uma frase só pra dar ritmo ao texto. Vou refazer as pitadas de graça cinco ou seis vezes até achar que elas têm o tom adequado. Vou reler e reler e reler o que escrevo. Vou editar cinco ou dez vezes meus postes antigos. E escrever "poste" em vez de post é exagero de purismo?
Poste. Aquele negócio alto de concreto que serve pra segurar fio elétrico. Mas que serve mesmo é pra taróloga colar cartaz e cachorro fazer xixi. "Faço amarração para o amor". "Compro e vendo ouro". Vou colar meus cartazes. Fazer publicidade de mim pra mim mesma. Pra ver se afinal me descubro mais. Dá pra se aprender quem se é? O ouro, eu não compro nem vendo: preciso é oferecer, receber, compartilhar meu ouro. Usá-lo, talvez, de tijolo para uma casa bem bonita. Mas primeiro encontrá-lo.
É isso. Cachorro que passa na rua vai ver e fazer xixi. Gente interessada vai ligar e marcar consulta. Mas não é pra nada disso que eu quero escrever. Não sei se consigo escrever ignorando cachorros, pedestres, dezenas de públicos possíveis. Talvez eu descubra que não. Quero pelo menos admitir que não consigo. Quero, pelo mais, conseguir.
E se releio, se edito, se refaço, é para ser exata.
Viver não é preciso. Mas permite encontrar lugares de equilíbrio.
(Hahá!, eu tenho um blogue.)
